Em dezembro, os ramos de azevinho com bagas vermelhas aparecem em coroas, centros de mesa e postais.
Quem tem um azevinho no quintal sabe, no entanto, que muitas plantas nunca dão uma única baga. Não é doença nem falta de adubo: é uma questão de sexo.
Plantas macho e plantas fêmea
O azevinho (Ilex aquifolium) é uma espécie dioica. Cada planta tem flores de um só sexo, e só as plantas fêmea formam fruto. Para isso precisam de pólen de uma planta macho que esteja por perto.
As flores são pequenas, brancas ou rosadas, e abrem entre abril e junho, segundo o guia do professor publicado pela REN. As bagas vermelhas do inverno são o resultado dessa floração da primavera. Hoje existem também variedades de jardim com flores dos dois sexos na mesma planta.
Porque as folhas picam mais perto do chão
Num mesmo azevinho podem crescer folhas cheias de espinhos e folhas quase lisas. Um estudo de Carlos Herrera e Pilar Bazaga, do Conselho Superior de Investigações Científicas de Espanha, publicado em 2012 na Botanical Journal of the Linnean Society, analisou 40 azevinhos de uma floresta do sudeste espanhol.
As folhas abaixo de cerca de 2,5 metros, a altura a que chega um veado adulto, eram consistentemente mais espinhosas.
Os investigadores associaram essa diferença aos ramos comidos por veados e cabras e a alterações químicas no ADN que mudam a forma como os genes se expressam, sem mudar a sequência.
| Característica | O que se observa | Explicação |
|---|---|---|
| Bagas vermelhas | só em algumas plantas | espécie dioica: só as fêmeas dão fruto |
| Folhas com espinhos | sobretudo nos ramos baixos | resposta aos herbívoros (estudo de 2012) |
| Folhas lisas | nos ramos altos e nas plantas mais velhas | menos pressão de herbívoros |
| Bagas | tóxicas para as pessoas | provocam vómitos e diarreia |
As bagas não são para comer
O guia da REN descreve as bagas como venenosas para as pessoas e, mesmo em pequenas quantidades, como um purgante forte, com diarreia e vómitos. Em casas com crianças, os ramos decorativos devem ficar fora do alcance.
Porque o azevinho da serra não se pode cortar
O Decreto-Lei n.º 423/89, de 4 de dezembro, proíbe em todo o continente arrancar, cortar total ou parcialmente, transportar e vender azevinho espontâneo.
A única exceção, com licença, é para obras de interesse geral. O preâmbulo explica porquê: a procura de Natal levava a cortes tão intensos que matavam plantas, muitas delas centenárias.
A lei fixou coimas em escudos, de 20 mil a 200 mil escudos, o que equivale a cerca de 100 a 1000 euros, e até 2 milhões de escudos para empresas.
Pode ainda haver apreensão das plantas. Segundo o ICNF, citado pelo ODigital em 2022, existe desde 1990 um sistema de acreditação voluntária para produtores de azevinho cultivado.
Quem quiser azevinho para o Natal deve, por isso, comprá-lo em viveiro ou a um produtor identificado, ou optar por plantas envasadas que se mantêm no jardim. Outra planta da serra que dá fruto nesta altura é o medronheiro, com flores e frutos ao mesmo tempo.
Fontes
- Decreto-Lei n.º 423/89, de 4 de dezembro (texto na FAOLEX)
- ODigital: Azevinho para o Natal? Saiba que é proibido cortar (11/12/2022)
- REN: guia do professor, azevinho
- ScienceDaily: Why is holly prickly? (estudo de Herrera e Bazaga)