Nos troncos e nos ramos das árvores há manchas amarelo-alaranjadas, crostas cinzentas e pequenos tufos que parecem barbas. Não são musgo: são líquenes, e o tipo de líquen que cresce numa árvore diz alguma coisa sobre o ar à volta.
Porque os líquenes denunciam o ar
Um líquen é uma associação entre um fungo e uma alga. Não tem raízes nem estruturas de absorção e excreção: retira água e nutrientes diretamente da atmosfera, através da superfície do corpo, o talo.
Como não tem forma de filtrar o que absorve, acumula também os poluentes. Cresce devagar, vive muito tempo e não pode fugir quando as condições pioram, o que faz dele um registo lento do ambiente, explicam as investigadoras Silvana Munzi e Catarina Gouveia, da Universidade de Lisboa.
Do enxofre ao azoto
Nas décadas de 1970 e 1980, a grande ameaça para os líquenes na Europa era o dióxido de enxofre. Hoje, segundo o guia do Field Studies Council britânico, a preocupação principal passou a ser o azoto reativo.
Esse azoto chega por duas vias: os óxidos de azoto da combustão, sobretudo do trânsito, e o amoníaco da agricultura, vindo do estrume e dos adubos. A maior parte deposita-se perto da fonte, num raio de cerca de 200 metros.
Dois grupos fáceis de reconhecer
| Aspeto | Grupo | O que costuma indicar |
|---|---|---|
| Tufos ou barbas cinzento-esverdeados, pendentes | Usnea | Sensível ao azoto: aparece sobretudo onde o ar tem pouco azoto |
| Manchas folhosas amarelo-alaranjadas | Xanthoria | Tolerante ao azoto: abunda perto de estradas e de fontes agrícolas |
Os guias de referência são britânicos e a flora de líquenes muda de região para região. Em Portugal, equipas como a de Pinho e colegas (Journal of Atmospheric Chemistry, 2004) usaram mapas de diversidade de líquenes como primeiro passo para avaliar a qualidade do ar.
Como observar uma árvore
- Escolher pelo menos cinco árvores da mesma espécie, em condições parecidas, com tronco de mais de 40 centímetros de perímetro.
- Evitar árvores cobertas de hera.
- Olhar para o tronco entre 1 e 1,5 metros de altura, em três lados diferentes.
- Comparar o tronco com os ramos mais finos.
A comparação final é a mais reveladora. Os ramos novos reagem mais depressa às mudanças do ar do que o tronco; se os ramos têm mais líquenes tolerantes ao azoto do que o tronco, o ar pode estar a piorar. O contrário pode indicar melhoria.
Uma barba de líquen num ramo de jardim é, assim, um pequeno arquivo do ar dos últimos anos. Fica a pergunta para o próximo passeio: o que dizem as árvores da rua de casa, comparadas com as do parque mais próximo? Para outro exemplo do que as árvores revelam, veja as galhas nos castanheiros.
Fontes
- Munzi, S. e Gouveia, C. (2018). Perguntem aos líquenes. Revista de Ciência Elementar, 6(01):008
- Field Studies Council (AIDGAP) — Guide to the lichen-based nitrogen air quality index
- Field Studies Council — Using lichens on trees as bio-indicators of air pollution
- Pinho, P. et al. (2004). Mapping lichen diversity as a first step for air quality assessment. Journal of Atmospheric Chemistry, 49