Natureza

Trilobites gigantes de Arouca: porque estes fósseis chegam aos 70 cm e aparecem aos milhares

Trilobites gigantes de Arouca: porque estes fósseis chegam aos 70 cm e aparecem aos milhares
Trilobites gigantes de Arouca: porque estes fósseis chegam aos 70 cm e aparecem aos milhares

Em algumas lajes de ardósia de Arouca, as trilobites não aparecem sozinhas. Surgem aos montes, umas por cima das outras, e algumas têm o comprimento do braço de uma criança. Porque é que animais com centenas de milhões de anos ficaram assim, juntos e enormes?

A pergunta tem resposta publicada. Em 2009, uma equipa luso-espanhola descreveu na revista Geology os exemplares das pedreiras de ardósia do Geoparque de Arouca, alguns com 70 centímetros de comprimento. A maior parte das trilobites encontradas no mundo cabe na palma da mão.

Quem eram as trilobites

As trilobites eram artrópodes marinhos, parentes afastados dos insetos, das aranhas e dos caranguejos. Tinham o corpo dividido em três lobos, de onde vem o nome, e uma carapaça rígida que mudavam à medida que cresciam.

Foram o grupo mais diverso de artrópodes marinhos extintos, segundo o comunicado que acompanhou o estudo. As de Arouca viveram no Ordovícico, há cerca de 465 milhões de anos, num mar que cobria esta parte do território.

Porque eram tão grandes

Nessa época, a região fazia parte do supercontinente Gondwana e estava perto do Polo Sul. Os autores relacionam o tamanho invulgar com o chamado gigantismo polar: em águas frias, alguns animais marinhos crescem mais do que os parentes de mares quentes.

Convém separar observação de interpretação. O tamanho está medido nos fósseis. O gigantismo polar é a explicação proposta pelos autores para seis das espécies e continua a ser uma hipótese, não uma conclusão fechada.

Mil exemplares na mesma laje

O dado mais discutido do estudo são os aglomerados. Alguns juntam cerca de mil exemplares, por vezes de uma só espécie, por vezes de várias, e muitas vezes separados por tamanhos.

Os autores interpretam-nos como sinal de comportamento social: abrigo temporário contra predadores, e mudas e reprodução em simultâneo. A ardósia formou-se num fundo pobre em oxigénio, o que ajudou a conservar os grupos tal como estavam.

Uma experiência para fazer em casa ou na sala de aula

Muitos fósseis não são o animal em si, mas a marca que deixou na rocha. A diferença percebe-se com material simples e seguro:

  • Achatar um pedaço de plasticina numa caixa pequena, pressionar uma concha limpa e retirá-la com cuidado. A marca que fica é o molde externo.
  • Preparar gesso com água, segundo as instruções da embalagem, e deitá-lo sobre a marca.
  • Depois de seco, separar o gesso. A peça obtida reproduz a forma da concha e corresponde ao contramolde.
  • Comparar as duas peças e procurar, numa laje ou numa fotografia de trilobite, qual das situações se observa.

O que estas lajes ainda podem dizer

As trilobites de Arouca mostram que até o comportamento pode ficar registado na pedra, desde que o fundo do mar seja calmo e pobre em oxigénio.

Fica uma pergunta para quem as observa: se estes animais se juntavam para mudar de carapaça, quantas das peças numa laje são animais mortos e quantas são apenas mudas abandonadas?

Noutros pontos do país há fósseis mais recentes à vista de todos, como os rudistas das pedras da Baixa de Lisboa. Quem quiser ver as lajes de perto pode juntar a visita a outros locais de Arouca.

Fontes

Sobre o autor

Fernando Alves

Fernando Alves é professor e editor, com formação em Ciências Naturais e mais de duas décadas de experiência a escrever e a ensinar. Assina na VortexMag artigos sobre natureza, viagens, história e atualidade, sempre com o mesmo cuidado de verificar cada facto antes de o publicar.