Natureza

Cegonhas que já não migram: o estudo em Portugal que as seguiu por GPS até aos aterros

Cegonhas que já não migram: o estudo em Portugal que as seguiu por GPS até aos aterros
Cegonhas que já não migram: o estudo em Portugal que as seguiu por GPS até aos aterros

Em pleno inverno, há cegonhas pousadas nos ninhos dos postes e das torres como se fosse primavera. Durante gerações, a cegonha-branca foi a ave que partia para África no fim do verão; hoje, milhares ficam em Portugal o ano inteiro.

O que dizem as contagens de inverno

AnoCegonhas contadas no inverno em PortugalFonte
19951187Citado em Gilbert et al. (2016)
19971708Relatório interno do ICN, citado na ficha Rede Natura 2000
200810 020Citado em Gilbert et al. (2016)
2014cerca de 14 000Comunicação pessoal citada em Gilbert et al. (2016)

O aumento das cegonhas que passam o inverno na Península Ibérica a partir dos anos 1990 está bem documentado. Os valores mais recentes da tabela são estimativas e devem ser lidos como ordem de grandeza.

O que o GPS revelou

Em 2016, uma equipa de investigadores portugueses e britânicos, liderada por Nathalie Gilbert e Aldina Franco, da Universidade de East Anglia, publicou na revista Movement Ecology um estudo com cegonhas residentes equipadas com registadores GPS. O título resume a pergunta: «Are white storks addicted to junk food?».

Fora da época de reprodução, as aves chegaram a voar 48,2 quilómetros até um aterro, quatro vezes mais do que as estimativas anteriores para a Península Ibérica, que rondavam os 12 quilómetros.

No inverno, cerca de um quinto das localizações fora do ninho foi registado em aterros. Ao mesmo tempo, as aves passavam muito tempo no próprio ninho, o que sugere que ficar perto dele, e defendê-lo, é uma das vantagens de não migrar.

Na época de reprodução, a distância máxima foi menor, de 28,1 quilómetros, e quanto mais longe ficava o aterro, menos as cegonhas o usavam.

Porque isto importa agora

A legislação europeia obriga a reduzir os resíduos biodegradáveis enviados para aterro, e os depósitos a céu aberto têm vindo a ser substituídos por instalações cobertas, a que as aves não chegam. Os autores escrevem que o fecho dos aterros terá provavelmente impactos dramáticos nas populações de cegonha.

Convém separar o que é consenso do que é previsão. Que há muito mais cegonhas a invernar em Portugal, as contagens mostram. Que os aterros ajudam a explicar essa mudança, este e outros trabalhos sustentam. O que acontecerá quando o lixo deixar de estar acessível ainda é uma pergunta em aberto.

Para quem vê cegonhas em dezembro perto de casa, fica a pergunta: voltarão a atravessar o estreito de Gibraltar se a comida fácil desaparecer, ou encontrarão outra fonte de alimento cá dentro? Há ainda cegonhas que fogem a todas as regras, como as que fazem ninho nas falésias do Cabo Sardão.

Fontes

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VxMag

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