Na primavera, alguns castanheiros enchem-se de pequenas bolas verdes ou avermelhadas nos rebentos e nas folhas. Não são frutos nem doença das folhas. São galhas, a casa das larvas de uma vespa com cerca de 2,5 mm que só se alimenta de castanheiro.
Chama-se vespa-das-galhas-do-castanheiro (Dryocosmus kuriphilus). Agora que se apanham castanhas, vale a pena perceber o que esta praga mudou nos soutos portugueses e porque a resposta veio de outro inseto.
Da primeira deteção à expansão
Segundo a RefCast, a associação portuguesa da castanha, a primeira deteção em Portugal aconteceu a 28 de maio de 2014, na freguesia de Aguiar, em Barcelos, em dois castanheiros bravos com mais de 50 anos.
Nesse ano, o ICNF registava já focos em concelhos do Minho e do Douro, como Ponte de Lima, Melgaço, Baião e Resende.
Em novembro de 2015, havia focos em 28 concelhos e 180 freguesias, além da Madeira. A dispersão à distância faz-se sobretudo com plantas, ramos ou estacas infestados; a curta distância, com o vento, o voo dos adultos e o transporte involuntário.
Como se reconhece
O ICNF descreve as galhas a surgir a partir de meados de abril nos raminhos mais novos, nos pés das folhas ou na nervura central. As fêmeas adultas andam ativas do fim de maio ao fim de julho.
O problema é o que as galhas tiram à árvore. Reduzem a frutificação, podem baixar muito a produção e a qualidade da castanha e, em casos graves, levar ao declínio do castanheiro.
O inseto que a trava
A resposta foi a luta biológica com o Torymus sinensis, uma pequena vespa parasitoide específica desta praga. A fêmea põe os ovos dentro das galhas e as suas larvas alimentam-se das larvas da vespa-das-galhas.
| Ano | Largadas de Torymus sinensis |
|---|---|
| 2015 | 35 |
| 2016 | 104 |
| 2017 | 301 |
| 2018 | 720 |
| 2021 | 953 |
Os valores de 2015 a 2018 são da RefCast; o de 2021 foi divulgado pela Lusa. Em 2021, o programa abrangia 89 municípios e o parasitoide estava instalado em 81. Desde 2016, ao abrigo do protocolo Biovespa, somavam-se cerca de 2500 largadas em 104 municípios.
O que diz a experiência de outros países
O caso mais estudado é o italiano. Um trabalho de Chiara Ferracini e colegas, publicado em 2019 no Journal of Pest Science, acompanhou durante nove anos 23 locais no noroeste de Itália e analisou 64 000 galhas. Nove anos depois da largada, a taxa de infestação estava próxima de zero e sem sinais de regresso.
Em Portugal, o presidente da RefCast afirmava em 2021 que os efeitos começavam a ser visíveis e que a quebra de produção temida não se tinha verificado, apesar de perdas pontuais em alguns soutos. É uma avaliação do setor, não um estudo publicado, e convinha ser confirmada com dados de monitorização recentes.

O que pode fazer quem tem castanheiros
- Comprar plantas de castanheiro apenas em viveiros com passaporte fitossanitário, porque as plantas infestadas são a principal via de dispersão.
- Ao encontrar galhas, contactar a Direção Regional de Agricultura e Pescas da região ou a RefCast, que acompanham o programa de luta biológica.
A castanha chega à mesa de muitas formas, da sopa de castanhas à transmontana ao magusto. E o outono é também a altura de estar atento a outra vespa, a vespa-asiática e os seus ninhos.
NOTA DO AUTOR
Há apenas algumas semanas, foram lançados em Lisboa milhares de mosquitos-tigre estéreis. A ideia é combater a proliferação deste inseto, que ajuda a disseminar doenças como Dengue e Zika.
Esta ação alarmou muitos habitantes locais, talvez por falta de conhecimento sobre a matéria mas também por falta de diálogo por parte de quem é responsável por estes projetos.
Mas como espalhar milhares de mosquitos na cidade de Lisboa diminui a população dos mesmos? A lógica é simples: os mosquitos lançados são estéreis, mas irão na mesma acasalar com as fêmeas.
Se eles conseguirem acasalar com elas, significa que menos mosquitos férteis irão fazê-lo. É uma questão de competição: serão os mosquitos estéreis que acasalarão com as fêmeas ao invés dos outros, mas os estéreis não fecundam e não originam descendência.
Vem esta história a propósito da vespa que infeta os castanheiros e de como ela é combatida: de forma inteligente, eficaz e sem usar químicos que seria prejudiciais para o ambiente e para as pessoas.
Fontes
- ICNF. Vespa das galhas do castanheiro, Fitonotícias n.º 3 (2014).
- RefCast / Município de Montalegre (2019). Programa de luta biológica contra a vespa das galhas do castanheiro.
- Agroportal/Lusa (07/05/2021). Luta biológica contra a vespa que ameaça os castanheiros abrange 89 municípios.
- Ferracini, C. et al. (2019). Effectiveness of Torymus sinensis: a successful long-term control of the Asian chestnut gall wasp in Italy. Journal of Pest Science, 92: 353–359.