Quem atravessa a fronteira em Elvas ou em Valença tem de acertar o relógio. Do lado português são 10h00, do lado espanhol já são 11h00, embora o sol esteja exatamente no mesmo sítio do céu. A diferença não é geográfica: é uma escolha política.
Portugal continental segue a hora de Greenwich, a referência do meridiano que passa em Londres. Espanha, apesar de ficar praticamente na mesma faixa de longitude, adotou em 1940 a hora da Europa Central, a mesma de Paris, Berlim ou Roma.
A lei que define a hora portuguesa
Segundo o IPMA, o diploma em vigor é o Decreto-Lei n.º 17/96, de 8 de março. Portugal continental e a Madeira usam o tempo universal coordenado (UTC) no inverno e UTC mais uma hora no verão. Os Açores têm menos uma hora do que o continente.
A referência oficial da hora legal é o Observatório Astronómico de Lisboa, responsável por manter e difundir a hora certa no país.
Um século de mudanças
A hora de Greenwich passou a vigorar em Portugal a 1 de janeiro de 1912. Até aí, o país usava a hora local de Lisboa, que teve de ser acertada em 36 minutos e 44 segundos.
Desde então, houve várias experiências:
- em 1966, o Decreto-Lei n.º 47 233 fixou uma hora única todo o ano, equivalente a UTC mais uma hora;
- em 1976, o Decreto-Lei n.º 309/76 repôs a hora de Greenwich no inverno, invocando as crianças que iam para a escola ainda de noite;
- entre 1992 e 1996, Portugal alinhou a hora com a Europa Central;
- em 1996, o país regressou à hora de Greenwich, que se mantém.
A experiência de 1992 a 1996
A última tentativa de acertar o relógio com o centro da Europa é a mais lembrada. Durante quatro anos, os portugueses tiveram a mesma hora que Espanha e França.
O preço foi sentido sobretudo no inverno. As manhãs ficaram muito escuras e havia aulas que começavam às 9h00 ainda de noite. As queixas sobre o sono e a rotina das famílias levaram ao regresso à hora de Greenwich em 1996.
O debate europeu sobre a mudança da hora
Em 2018, a Comissão Europeia fez uma consulta pública sobre o fim das mudanças de hora duas vezes por ano. Recebeu 4,6 milhões de respostas, 84% delas a favor de acabar com a mudança.
O Parlamento Europeu aprovou a proposta a 26 de março de 2019, mas o Conselho, onde estão representados os governos, nunca chegou a uma posição comum. Em março de 2026, a Comissão admitia que a medida continuava possível e anunciava um estudo para o final do ano.
Por agora, tudo se mantém. Os relógios adiantam uma hora no último domingo de março e atrasam uma hora no último domingo de outubro.
O que isto significa no dia a dia
A diferença de hora explica muitas curiosidades. Em Espanha, o sol nasce e põe-se mais tarde no relógio, e os horários de almoço e jantar são também mais tardios.
Para quem viaja, o erro mais comum é esquecer a diferença ao marcar reuniões, consultas ou reservas do outro lado da fronteira. Os telemóveis acertam automaticamente, mas os compromissos marcados de véspera não.
As relações entre os dois países têm outras curiosidades, como as aldeias que a fronteira divide ao meio. A informação oficial sobre a hora legal está no site do IPMA.