Hoje parece impossível imaginar os carros portugueses a circular do lado esquerdo da estrada, como em Londres. Mas foi exatamente isso que aconteceu durante décadas, até uma madrugada de 1928.
A 1 de junho desse ano, a partir das 5h00, o país passou a circular pela direita. A mudança foi feita em todo o território continental no mesmo dia, segundo relatos publicados pelo Automóvel Club de Portugal e pela imprensa especializada.
Porque se mudou
O objetivo foi uniformizar a circulação com os países da Europa continental. Portugal seguia um costume semelhante ao britânico, mas os vizinhos, incluindo Espanha, circulavam pela direita.
Na década de 1920, o número de automóveis crescia e as viagens internacionais por estrada tornavam-se mais comuns. Manter um sentido de circulação diferente do resto do continente criava confusão e riscos nas zonas de fronteira.
Como se preparou um país inteiro
Uma mudança destas não se faz sem aviso. Segundo o Motor24, o Diário de Notícias, com o patrocínio de uma petrolífera, organizou uma campanha nacional de sensibilização.
Foram distribuídos cartazes e faixas por todo o país, e o jornal deu grande destaque às novas regras nas suas páginas. Numa época sem televisão, a imprensa e os cartazes eram a forma de chegar a condutores, cocheiros e peões.
A mudança afetava muito mais do que os automóveis. Carroças, bicicletas, animais de carga e peões tiveram de se habituar a um novo lado da via, e os hábitos de uma vida inteira não mudam de um dia para o outro.
Nos primeiros tempos, a adaptação exigiu atenção redobrada, sobretudo nas curvas e nos cruzamentos, onde o instinto antigo levava muitos condutores para o lado errado. Sinais, marcações e hábitos de cortesia tiveram de ser repensados à luz da nova regra.
O que aconteceu nas colónias
A regra não foi aplicada da mesma forma em todo o império. Moçambique manteve a circulação pela esquerda, por estar rodeado de territórios britânicos onde essa era a regra.
Segundo o portal Circula Seguro, Macau e Goa também mantiveram a circulação pela esquerda. Ainda hoje, Moçambique e Macau circulam desse lado, tal como a Índia, onde fica Goa.
Um mundo dividido
A divisão entre esquerda e direita continua a existir. Segundo o Motor24, a maioria dos países do mundo circula pela direita, enquanto cerca de 60 países, incluindo o Reino Unido e muitos membros da Commonwealth, mantêm a circulação pela esquerda.
Há várias explicações populares para a origem de cada costume, algumas ligadas a cavaleiros e espadas, outras a Napoleão. São hipóteses interessantes, mas nenhuma está solidamente demonstrada. O que está documentado, no caso português, é a motivação prática de alinhar o país com os vizinhos continentais.
A regra de hoje
No Código da Estrada atual, o princípio mantém-se: o trânsito de veículos faz-se pelo lado direito da faixa de rodagem e o mais próximo possível das bermas ou passeios. É a base de muitas outras regras, das ultrapassagens à prioridade.
Nas rotundas, esta lógica também gera dúvidas frequentes, e vale a pena rever como se deve circular numa rotunda. O relato completo da mudança de 1928 pode ser lido no Motor24.
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