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La Codosera: a aldeia mais portuguesa de Espanha

La Codosera: a aldeia mais portuguesa de Espanha
La Codosera: a aldeia mais portuguesa de Espanha

A poucos quilómetros de Arronches e Portalegre, já na província de Badajoz, La Codosera vive numa fronteira que raramente se sente. O português cruza-se com o castelhano nas conversas de café, nos mercados e nas ruas caiadas, criando um registo linguístico híbrido que faz parte do quotidiano.

O rio Gévora, que poderia funcionar como linha divisória, acabou por assumir um papel de ligação. Ao longo de gerações, a circulação de pessoas, bens e afetos tornou a fronteira um detalhe administrativo mais do que uma barreira cultural.

Uma comunidade construída a dois

A designação de “aldeia mais portuguesa de Espanha” não é mero slogan. Estima-se que existam atualmente cerca de 200 famílias resultantes de casamentos mistos entre portugueses e espanhóis. A herança partilhada é visível nos apelidos, nas tradições e na língua.

Em períodos de maior dificuldade económica ou política em Portugal, muitos portugueses atravessaram a raia em busca de trabalho na Estremadura. Esse fluxo consolidou uma sociedade onde o chamado “portunhol” funciona como expressão natural de convivência.

Nas aldeias dependentes do município — os chamados casales — sobrevivem termos portugueses arcaicos, verdadeiros fósseis linguísticos de um tempo em que o comércio de subsistência e o contrabando de café e gado estruturavam a economia local.

Chandavila: fé em tempos de vigilância

Em 1945, La Codosera ganhou projeção com as aparições marianas de Chandavila. Num contexto de forte vigilância fronteiriça sob os regimes de Franco e Salazar, milhares de portugueses cruzaram clandestinamente trilhos conhecidos como “Caminho das Almas” para rezar no Santuário de Chandavila.

A devoção tornou-se pretexto legítimo para reencontros familiares e reafirmação de laços numa época em que a mobilidade era condicionada. O santuário permanece como símbolo dessa ligação espiritual e social entre as duas margens.

A ponte que quase não separa

A poucos quilómetros do centro da vila encontra-se a ponte sobre a Ribeira de Abrilongo, que liga El Marco, em Portugal, a La Codosera. Com apenas alguns metros de extensão, é frequentemente apontada como uma das pontes internacionais mais pequenas do mundo.

Mais do que curiosidade geográfica, esta passagem discreta ilustra a realidade local: atravessar a fronteira pode significar apenas dar alguns passos para visitar um vizinho.

Do contrabando à descoberta cultural

Durante décadas, os trilhos da região foram percorridos por contrabandistas. Café, tecidos e gado cruzavam o rio Gévora sob a proteção da noite, alimentando economias familiares e redes de solidariedade.

Hoje, esses caminhos transformaram-se em percursos pedestres e rotas de turismo cultural. A paisagem serrana, marcada por sobreiros e pequenas explorações agrícolas, convida a uma descoberta tranquila de uma raia que viveu da necessidade e hoje se afirma pela memória.

Uma fronteira que não divide

Visitar La Codosera é perceber que a cultura pode ser mais forte do que os limites traçados nos mapas. Entre o santuário de Chandavila e a ponte de Abrilongo, a presença portuguesa é evidente na língua, nas histórias e nos hábitos quotidianos.

Aqui, a fronteira não termina identidades — prolonga-as. La Codosera permanece como exemplo de convivência ibérica, onde duas bandeiras coexistem numa mesma comunidade moldada por séculos de partilha.

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VxMag

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