Quem desce da Torre para Manteigas atravessa um vale largo, de fundo plano e paredes quase a pique. É considerado um dos melhores exemplos de paisagem moldada pelo gelo em Portugal, e essa forma não foi o rio que a fez.
Foi escavada por uma língua de gelo com cerca de 340 metros de espessura, que descia do planalto da Torre durante a última glaciação.
O vale do Zêzere numa animação
A animação percorre a história do vale, desde o rio que corria num vale estreito até à paisagem de hoje. Pode vê-la em corte, como se o vale fosse cortado de uma encosta à outra, ou ao longo do vale, da Torre até Manteigas.
Como um vale em V passou a vale em U
Antes do gelo, o Zêzere corria num vale estreito e encaixado. O traçado aproveitava uma grande falha, o alinhamento Bragança-Vilariça-Manteigas, e é por isso que o vale é tão direito.
Quando o clima arrefeceu, a neve passou a acumular-se no planalto acima de cerca de 1650 metros. É a chamada linha de equilíbrio: acima dela, a neve que cai no inverno já não derrete no verão e vai-se transformando em gelo.
Formou-se assim um campo de gelo no alto da serra, de onde desciam vários glaciares pelos vales, como os raios de uma roda. No conjunto, cobriam cerca de 66 quilómetros quadrados.
A língua de gelo do Zêzere chegou a ter 11,3 quilómetros de comprimento. Não escorregava como um bloco rígido: fluía devagar e levava presos na base blocos de granito que funcionavam como uma lixa, raspando o fundo e polindo a rocha.
Ao longo de milhares de anos, o vale ficou mais largo e mais fundo, com o perfil em U que hoje se vê. O troço mais regular estende-se por cerca de 10 quilómetros, entre o Covão d’Ametade e Manteigas.
O gelo também escavou mais onde a rocha cedia e deixou degraus onde resistia. Daí a sucessão de covões, as bacias planas do alto do Zêzere, separados por ferrolhos, os ressaltos de rocha que interrompem o vale.
Os vales laterais, como o da Candeeira, tinham glaciares mais pequenos que se juntavam ao principal. Quando o gelo desapareceu, ficaram pendurados acima do fundo do Zêzere, a que os geólogos chamam vales suspensos.
Quando o gelo chegou e quando partiu
Para datar o gelo, os investigadores medem um isótopo que se forma na superfície das rochas quando ficam expostas aos raios cósmicos. Quanto mais tempo um bloco de moreia esteve a descoberto, mais isótopo acumulou.
| Quando | O que aconteceu na Serra da Estrela |
|---|---|
| Há cerca de 140 mil anos | Os glaciares atingem a maior extensão, no fim do penúltimo ciclo glaciar |
| Há cerca de 30 mil anos | Novo avanço, com uma extensão semelhante, pouco antes do último máximo glaciar |
| Há cerca de 14 mil anos | O gelo desaparece da serra, no início de um período de aquecimento |
O vale que hoje se vê é, por isso, o resultado de mais do que um avanço do gelo e não de um único glaciar.
Os sedimentos de uma lagoa da serra contam o fim da história. O registo começa há cerca de 14 600 anos, quando o gelo libertou a bacia e ela começou a encher-se de água e lama.
Onde ver as marcas do glaciar
- Covão d’Ametade, a depressão glaciar na cabeceira do Zêzere onde começa o troço em U do vale. Está descrito em Covão da Ametade, um dos locais mais bonitos da Serra da Estrela.
- Nave de Santo António, com acumulações de moreia onde está o Poio do Judeu, apontado pelo Geopark Estrela como o maior bloco morénico de Portugal.
- Lagoa Comprida, com um dos maiores campos de blocos erráticos do país, pedras largadas pelo gelo longe do sítio de onde vieram.
- Covão do Ferro, o maior circo glaciário da Estrela, a bacia em forma de anfiteatro onde nascia um glaciar.
- Centro Interpretativo do Vale Glaciário do Zêzere, em Manteigas, para perceber o vale antes de o percorrer.
- Rota do Glaciar (PR6 MTG), percurso pedestre linear entre Manteigas e a Torre, de dificuldade média, que segue o vale e as marcas do gelo. Há outras sugestões em trilhos para descobrir a Serra da Estrela a pé.
Na estrada entre Manteigas e a Torre, vale a pena olhar para as encostas. A forma de U que ali se vê é a assinatura de um rio de gelo que deixou de existir muito antes de haver aldeias na serra.
Fontes
- Vieira e Nieuwendam (2020), paisagens glaciárias e periglaciárias da Serra da Estrela (Universidade de Lisboa)
- Vieira et al. (2021), extensão e datação dos glaciares da Serra da Estrela (Universidade de Lisboa)
- Vieira, Woronko e Ferreira (2007), moreias e depósitos glaciários da Serra da Estrela (EGU)
- Hernández et al. (2022), o fim do gelo registado nos sedimentos de uma lagoa da serra (EGU)
- Geossítio do vale glaciar do Zêzere (DGEG)
- Percurso interpretativo dos miradouros (Geopark Estrela)
- Rota do Glaciar, PR6 MTG (Manteigas Trilhos Verdes)