No bairro de Santos, em Lisboa, existe um palácio que sobreviveu ao terramoto de 1755, passou por D. Sebastião, pelo futuro D. João IV e por um marquês com grande admiração pela cultura francesa — e que desde 1911 é a embaixada de França em Portugal. É Monumento Nacional desde 1948 e pode ser visitado quatro dias por mês, mediante reserva.
A história do edifício começa no século XV, quando D. Manuel I mandou construir uma casa junto ao Tejo para os seus filhos bastardos. A escala foi crescendo com as ampliações successivas até se tornar num palácio digno da corte.
D. Sebastião e a véspera de Alcácer-Quibir
O rei D. Sebastião passou no Palácio de Santos os seus últimos dias em Portugal antes de partir para Marrocos em 1578, de onde não regressou.
A derrota de Alcácer-Quibir e a morte do rei sem herdeiros desencadeou a crise dinástica que culminou na União Ibérica — e o palácio passou, nesse processo, para as mãos do duque de Bragança, que viria a ser D. João IV após a Restauração de 1640.
D. João IV vendeu o palácio ao conde de Aveiras, que o vendeu ao marquês de Abrantes. Foi este nobre — grande admirador da cultura francesa — quem deu ao edifício o seu carácter barroco atual, contratando arquitetos e artistas franceses para a decoração.
O terramoto de 1755 poupou o edifício mas o maremoto e os incêndios que se seguiram causaram danos que o marquês mandou reparar com a ajuda do arquiteto italiano Giacomo Azzolini, que acrescentou elementos neoclássicos à fachada principal.
O interior e as quatro salas que marcam
O palácio tem planta em U com pátio central, e um interior decorado com pinturas, azulejos, estuques e talha dourada. Quatro salas merecem atenção especial.
A Sala dos Embaixadores é onde decorrem as receções oficiais — teto pintado e paredes revestidas a azulejos azuis e brancos. A Sala dos Espelhos deve o nome aos grandes espelhos que cobrem as paredes — um efeito de amplitude que os interiores barrocos utilizavam com intenção declarada.
A Sala de Jantar tem mobiliário de estilo Luís XVI e uma decoração que reflete o gosto francês do marquês de Abrantes. A Sala do Trono foi usada pelo rei D. Sebastião quando aqui residia — a sala mais antiga em termos de função, num palácio que acumulou funções ao longo de cinco séculos.
Como visitar
O palácio é visitado quatro dias por mês, com reserva online obrigatória. As visitas são guiadas por especialistas em história e arte, duram uma hora e podem ser feitas em português ou francês.
O bilhete custa 12 euros por pessoa. Os visitantes devem chegar 20 minutos antes com documento de identificação — há controlo de segurança com detetor de metais e depósito de malas à entrada, como é habitual em instalações diplomáticas.
O Palácio de Santos passou por D. Manuel I, D. Sebastião, o futuro D. João IV, um marquês francófilo, o governo francês e cinco séculos de Lisboa. Não está nos roteiros habituais — não tem fila, não tem loja de recordações, não tem audioguia.
Tem um calendário de visitas com vagas limitadas e uma hora de história densa que a maioria dos museus da cidade não consegue igualar.






