Albano Beirão nasceu em 1884 numa aldeia perto da Guarda chamada Veloso. Desde os sete anos sofria de ataques violentos e inexplicáveis durante os quais se transformava — ou pelo menos era assim que os testemunhos da época descreviam o que viam.
Subia paredes, uivava, entrava em tocas de raposas para expulsar os animais. Trepava ao pelourinho da aldeia de cabeça para baixo. O professor da escola fugiu. A mãe, segundo os relatos, morreu de desgosto por não conseguir curar o filho.
O que distinguia Albaninho de outros casos de doença mental da época era a força física durante os ataques: deitar abaixo portões de ferro com cabeçadas, independentemente de quão bem trancados estivessem.
Saltar de comboios em movimento e correr ao lado da máquina antes de voltar a entrar. Escalar a Torre dos Clérigos, no Porto, sem equipamento. Fazer o mesmo com o Monumento ao Marquês de Pombal, em Lisboa, até os bombeiros serem chamados para o resgatar.
As autoridades não sabiam o que fazer com ele. O governo português, no início do século XX, tomou a decisão que as autoridades tomam quando não encontram outra solução: enviou-o para África. Segundo o próprio Albano recordaria mais tarde, a intenção era que ele não voltasse — que morresse na viagem ou no continente.
O que aconteceu no navio e depois
Durante a travessia, os marinheiros terão tentado atirá-lo ao mar. Albaninho, que não sabia nadar, chegou a nado à embarcação e voltou a bordo. Em Angola e no antigo Zaire, os relatos falam em confrontos com leões que ele teria estrangulado com as mãos durante os surtos.
São relatos sem verificação documental independente — mas a consistência com que aparecem em fontes diferentes sugere que havia, no mínimo, algum fenómeno real por detrás da mitologia.
Voltou a Portugal. A lenda tinha crescido na sua ausência.
O que a medicina da época fez com ele
O psiquiatra Miguel Bombarda — a figura mais importante da psiquiatria portuguesa do seu tempo — estudou Albaninho e admitiu nunca ter visto nada semelhante. O diagnóstico oscilava entre histero-epilepsia, esquizofrenia e uma forma rara de licantropia clínica, em que o doente acredita genuinamente ser um animal. Nenhum diagnóstico era completamente satisfatório para o que se observava.
A fama atravessou fronteiras. Albaninho foi estudado em universidades na Alemanha, em Inglaterra, na Rússia e na Suíça. Na Alemanha, médicos chegaram a sugerir que fosse abatido — o nível de destruição que causava nos estabelecimentos quando lhe negavam água durante os ataques tornava-o, na sua perspectiva, um perigo incontrolável. A água era o único elemento que parecia acalmar os episódios.
Albaninho, quando os ataques passavam, dizia que não se lembrava de nada — que acordava como de um sono profundo, sem ferimentos, independentemente do que tivesse feito.
A pensão real e o fim tranquilo
D. Carlos concedeu-lhe uma pensão. Quando a monarquia caiu, a República manteve-a. O Estado Novo, com Salazar, respeitou-a. A vida de Albaninho atravessou regimes com uma continuidade que poucos portugueses comuns conseguiam reivindicar.
Nos anos 30, os ataques cessaram. Albano Beirão voltou à sua aldeia, viveu o resto dos anos como um cidadão comum, e morreu quase centenário — já depois do 25 de Abril de 1974.
O funeral alimentou a última lenda: o caixão parecia demasiado leve, havia relatos de sangue a escorrer, e correu a história de que a cabeça tinha sido vendida a cientistas americanos por uma fortuna, deixando o corpo incompleto. Não há verificação documental. É o tipo de história que se cola a certas vidas como se fosse necessário que terminassem à altura do que tinham sido.
O que Albaninho foi, de facto
Um caso clínico que a medicina da época não conseguiu categorizar satisfatoriamente. Um homem que o Estado tentou eliminar por exílio forçado e que sobreviveu. Uma figura que atravessou quase um século de história portuguesa — da monarquia ao Estado Novo, da monarquia à república — com uma pensão paga por todos os regimes e uma reputação que nenhum deles conseguiu apagar.
O “Diabo Português” morreu de morte natural, numa aldeia da Guarda, velho e tranquilo. É, de certa forma, o desfecho mais perturbador de todos.
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