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Lamno: o povo de olhos azuis da Indonésia que descende de portugueses

Em Aceh, Indonésia, havia uma comunidade de olhos azuis que descende de portugueses naufragados há 500 anos. O tsunami de 2004 quase acabou com eles.

VxMag by VxMag
Jun 6, 2026
in Notícias
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lamno

Criança de Lamno, Indonésia

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Lamno é uma localidade na província de Aceh, na ponta norte da ilha de Samatra, na Indonésia. Antes de 2004, tinha uma comunidade de algumas centenas de pessoas conhecidas localmente como mata biru — olhos azuis. Muitos tinham pele mais clara, cabelo castanho ou louro, nariz pontiagudo. Numa região de maioria muçulmana e de traços asiáticos predominantes, destacavam-se.

A explicação que a tradição local sempre deu era simples: descendem de portugueses.

Como chegaram portugueses a Aceh

Os portugueses foram os primeiros europeus a chegar à Indonésia, no início do século XVI. Estabeleceram-se sobretudo na parte oriental do arquipélago, mas tinham ambições no norte de Samatra — queriam controlar o comércio de pimenta da região até ao mercado chinês, uma rota que valia fortunas. A relação com os sultões de Aceh oscilou entre acordos comerciais e conflito militar, e os planos portugueses para aquela zona nunca se concretizaram plenamente.

O que a tradição local conta é que, em algum momento deste período, um barco português naufragou ao largo da costa. Os sobreviventes, de acordo com o costume local da época, passaram a pertencer ao sultão e à região — tornaram-se, na prática, habitantes de Aceh. Casaram com mulheres locais, converteram-se ao Islão, e ficaram.

Não há documentação portuguesa que confirme o naufrágio. Não há nomes, não há datas precisas. Há apenas os olhos azuis que, cinco séculos depois, ainda apareciam em Lamno como um eco genético de uma viagem que correu mal.

A genética de um naufrágio

A cor de olhos azul não é comum em Portugal — é mais frequente no norte do país, mas continua a ser minoritária. Para que se tornasse predominante numa comunidade isolada no outro lado do mundo, bastaria que dois ou três dos náufragos a tivessem.

Numa comunidade pequena que casou durante gerações dentro de si própria, um traço recessivo pode fixar-se e amplificar-se com uma consistência que parece improvável mas é apenas matemática.

O antigo director do Museu de Aceh, Nurdin Ar, explicou à agência Lusa que a tradição oral da região é consistente neste ponto: houve portugueses, ficaram, integraram-se.

Não guardaram a língua, não guardaram a religião, não guardaram tradições distintas das do resto da comunidade. O que ficou foi visível na cara de algumas pessoas — e no nome mata biru que os identificava.

26 de dezembro de 2004

O tsunami que devastou o oceano Índico naquele domingo de dezembro atingiu Aceh com uma violência que tornou a província uma das zonas mais destruídas do desastre. Lamno ficou quase completamente arrasada.

O bairro dos pescadores onde a maioria dos mata biru vivia desapareceu. De uma comunidade de várias centenas de pessoas, sobreviveram menos de uma dezena com ascendência portuguesa reconhecida.

Jamaluddin tinha 45 anos quando os jornalistas da Lusa o encontraram depois do tsunami. Tinha olhos castanhos — o traço português já não era visível nele —, mas era reconhecido em Lamno como descendente da comunidade portuguesa. O tsunami matou-lhe a esposa e a filha, ambas também mata biru.

Voltou a casar com alguém de fora da comunidade, e vive agora num bairro construído pela Arábia Saudita durante a reconstrução, numa zona que se tornou multicultural pela força da tragédia.

O filho de Jamaluddin, Rahmat, tem vinte anos, pele clara e braços peludos que os vizinhos comentam. Sabe que tem ascendência portuguesa. Não faz disso uma identidade — é muçulmano, fala o dialecto de Aceh, vive como qualquer outro habitante da região.

O tsunami, diz ele, não foi um castigo mas um teste. Antes do desastre, nem sempre rezava cinco vezes por dia. Agora quer tornar-se líder religioso.

O que vai desaparecer

A tendência de desaparecimento da comunidade já existia antes de 2004. O tsunami acelerou o que o tempo faria de qualquer forma: à medida que os casamentos se fazem fora da comunidade, os traços físicos diluem-se. Ainda há casos em que “a mãe é muito escura, mas o filho é muito branco”, como descrevem os habitantes locais. Mas a direcção é clara.

Num futuro não muito distante, Aceh vai provavelmente esquecer os mata biru. O naufrágio anónimo de há 500 anos, os portugueses que ficaram e se converteram e criaram filhos com olhos claros numa ilha do outro lado do mundo — tudo isso vai desaparecer sem deixar mais rasto do que já deixou.

Que é quase nenhum. Apenas os olhos. E mesmo esses estão a ficar castanhos.

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