Cultura

Porque em português se diz chá e em inglês tea: as duas rotas que deram nome à bebida

Porque em português se diz chá e em inglês tea: as duas rotas que deram nome à bebida
Porque em português se diz chá e em inglês tea: as duas rotas que deram nome à bebida

Em português diz-se chá. Em inglês, tea. Em francês, thé. Em russo, árabe, turco ou hindi, a palavra soa a algo parecido com “tchai”. Parecem nomes escolhidos ao acaso, mas não são. Quase todas as línguas do mundo usam uma de duas palavras chinesas para a mesma bebida.

A escolha não dependeu da geografia, mas das rotas comerciais. E os navegadores portugueses tiveram um papel decisivo nesta história.

Duas palavras, uma só planta

Na China, a mesma planta tem nomes diferentes consoante a língua ou o dialeto. Na maior parte do país, incluindo o mandarim e o cantonês, diz-se “cha”. Na costa de Fujian, no dialeto min nan, diz-se “te”.

O linguista Östen Dahl estudou a distribuição destas palavras no World Atlas of Language Structures. Numa amostra de 230 línguas, 110 usam palavras derivadas de “cha” e 84 usam palavras derivadas de “te”. As restantes têm termos de outra origem.

O caminho do “cha”

As palavras do grupo “cha” espalharam-se por terra, ao longo das rotas da seda, chegando à Ásia Central, ao Médio Oriente e à Rússia. É por isso que tantas línguas dessas regiões têm variações de “chai” ou “tchai”.

Por mar, quem as levou foram os portugueses. No século XVI, os navegadores portugueses chegaram à China e estabeleceram-se em Macau, onde se falava cantonês. Foi aí que conheceram a bebida e adotaram a palavra que ouviam: chá.

O caminho do “te”

No século XVII, os neerlandeses tornaram-se os grandes importadores de chá para a Europa. Negociavam sobretudo em portos de Fujian, como Amoy, a atual Xiamen, onde se dizia “te”.

Segundo o mesmo estudo, foi o domínio neerlandês no comércio europeu de chá que fez de “te” a forma mais comum em grande parte da Europa. Dela descendem o inglês tea, o francês thé, o alemão Tee ou o espanhol té.

O português ficou como uma das exceções europeias. Manteve a palavra trazida de Macau, por ter chegado mais cedo.

O que esta história mostra

O caso do chá é um exemplo raro de como o vocabulário guarda o registo das trocas comerciais. Dahl sublinha que as línguas não precisam de ser vizinhas para se influenciarem: o que conta é quem negociava com quem.

Algumas pistas ajudam a perceber o mapa:

  • as línguas com “cha” ou “chai” correspondem, em geral, a regiões que receberam o chá por terra ou através dos portugueses
  • as línguas com “te” ou “tea” correspondem, em grande parte, a regiões ligadas ao comércio marítimo neerlandês
  • em várias antigas colónias neerlandesas da Ásia, a forma usada também deriva de “te”.

E os ingleses que bebem chá?

Há uma ironia nesta história. Apesar de usarem a palavra que chegou através dos neerlandeses, os ingleses costumam associar a popularização do chá na corte a uma princesa portuguesa.

A tradição atribui a D. Catarina de Bragança, que casou com Carlos II de Inglaterra em 1662, o gosto pela bebida que se tornaria um hábito nacional britânico. A história desta rainha é contada no artigo sobre Catarina de Bragança, a rainha portuguesa que mudou a Inglaterra.

A palavra, essa, nunca a acompanhou. Os ingleses ficaram com “tea”, e os portugueses continuaram a pedir uma chávena de chá, tal como os primeiros navegadores aprenderam em Macau há quase cinco séculos.

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