Cultura

Pão-por-Deus: a tradição de 1 de novembro em que as crianças pedem bolos de porta em porta

Pão-por-Deus: a tradição de 1 de novembro em que as crianças pedem bolos de porta em porta
Pão-por-Deus: a tradição de 1 de novembro em que as crianças pedem bolos de porta em porta

Na manhã de 1 de novembro, Dia de Todos os Santos, grupos de crianças batem às portas com um saco de pano na mão. Pedem «Pão-por-Deus» e recebem broas, bolos, nozes, castanhas, romãs, rebuçados e, por vezes, algumas moedas.

É uma das tradições populares mais antigas do calendário português. Muito antes de o Halloween chegar às montras, já as crianças portuguesas andavam de porta em porta nesta altura do ano.

Uma lengalenga que passa de geração em geração

O pedido faz-se muitas vezes com uma pequena rima. Uma das versões mais conhecidas diz: «Pão por Deus, / Fiel de Deus, / Bolinho no saco, / Andai com Deus».

Há muitas variantes, de aldeia para aldeia. Em algumas, quem não dá nada recebe uma rima menos simpática, dita em tom de brincadeira.

Segundo um artigo publicado pelo Opus Dei em Portugal sobre a tradição, nos anos 60 e 70 o costume era já sobretudo uma brincadeira infantil, feita por crianças até aos 10 anos e apenas durante a manhã.

Nomes diferentes para o mesmo costume

O Pão-por-Deus muda de nome conforme a região:

  • na zona de Leiria, é comum ouvir falar no Dia do Bolinho;
  • noutras terras, diz-se simplesmente «ir aos bolinhos» ou «pedir o bolinho»;
  • o santoro é o bolo que, em algumas regiões, os padrinhos oferecem aos afilhados;
  • nos Açores, há bolos próprios associados à data.

Os comércios também participavam, oferecendo um pouco do que vendiam: fruta na frutaria, rebuçados na mercearia, um pãozinho na padaria. Era também uma forma de reforçar os laços entre vizinhos, numa altura do ano marcada pela memória dos que já partiram.

De onde vem a tradição

A origem exata não é consensual. Algumas fontes situam o costume já no século XV, ligado à caridade e às orações pelos mortos, numa altura do ano dedicada aos santos e aos defuntos.

Outra explicação muito divulgada liga o Pão-por-Deus ao terramoto de 1 de novembro de 1755. No ano seguinte, a miséria em Lisboa teria levado muitas pessoas a pedir pão de porta em porta, por amor de Deus.

A leitura mais prudente é que se trata de um costume antigo, que ganhou nova força, ou novo significado, depois da tragédia de 1755.

Bolos, broas e frutos da época

O que se dá é o que a estação oferece. Nozes, castanhas, romãs, figos secos e maçãs misturam-se com broas e bolinhos feitos em casa.

As broas dos Santos, com mel, especiarias e frutos secos, são das mais associadas à data. Quem quiser receber as crianças com elas feitas em casa pode seguir a receita das broas dos Santos. E as castanhas, nesta altura, podem ser assadas em casa de várias formas.

Uma tradição que resiste

Em muitas aldeias e vilas, o Pão-por-Deus continua vivo, organizado pelas escolas ou pelas próprias famílias. Nas cidades, é mais raro, mas há bairros onde os vizinhos combinam receber as crianças.

Como o 1 de novembro voltou a ser feriado em 2016, a manhã está de novo livre para manter o costume. Basta um saco de pano, uma lengalenga bem decorada e vizinhos com a porta aberta.

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VxMag

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