Na costa alentejana, entre Vila Nova de Milfontes e a Zambujeira do Mar, há um ponto onde as falésias ganham uma companhia improvável. Em cima de pináculos de rocha, sobre o mar, constroem ninhos grandes e desajeitados as cegonhas-brancas. É o Cabo Sardão, no concelho de Odemira.
A imagem surpreende quem chega. As cegonhas costumam associar-se a torres de igrejas, postes e chaminés do interior, e não a falésias batidas pelo Atlântico.
As cegonhas das falésias
O fenómeno é raro. Segundo a National Geographic Portugal, a cegonha-branca só nidifica em zona costeira neste sudoeste alentejano, e os ninhos em falésias e penedos sobre o mar são únicos no mundo.
O turismo de Odemira acrescenta um pormenor curioso: as cegonhas ocupam ninhos que pertenciam originalmente à águia-pesqueira.
O cabo integra o Parque Natural do Sudoeste Alentejano e Costa Vicentina. Além das cegonhas, a zona é frequentada por falcões-peregrinos, corvos-marinhos, gaivotas e outras aves marinhas.
O farol no alto da arriba
O farol do Cabo Sardão entrou em funcionamento a 15 de abril de 1915. A torre tem 17 metros de altura, e a luz fica a cerca de 68 metros acima do mar, com um alcance de 23 milhas náuticas.
É o principal ponto de referência de quem visita o cabo. A zona envolvente permite caminhar até perto da beira das falésias e observar a costa para norte e para sul.
As rochas merecem também atenção. São xistos e grauvaques dobrados e retorcidos, que mostram, à vista desarmada, a força dos movimentos da crosta terrestre ao longo de milhões de anos. Ao pôr do sol, a luz rasante realça as dobras e as cores da pedra.
Como chegar
O Cabo Sardão fica perto da aldeia do Cavaleiro. Quem vem pela estrada nacional 393, entre Vila Nova de Milfontes e a Zambujeira, deve seguir a indicação do Cavaleiro e depois a estrada em direção ao mar.
Perto do farol, tudo se faz a pé, com cuidado redobrado perto das arribas, que não têm vedação em muitos pontos.
Caminhar pelo Trilho dos Pescadores
O cabo está no percurso da Rota Vicentina. Os caminhos para norte e para sul fazem parte do Trilho dos Pescadores, um percurso pedestre que acompanha a linha de costa por areia, terra batida e caminhos usados há gerações por quem descia às rochas para pescar.
Não é preciso fazer uma etapa inteira para apreciar a paisagem. Um passeio de uma ou duas horas a partir do farol já permite ver ninhos, enseadas e o mar a bater nas rochas.
Para completar a visita, as praias da Zambujeira do Mar e arredores ficam a poucos quilómetros.
Quando ir e o que levar
A primavera é a época mais animada, com as cegonhas ocupadas nos ninhos e a vegetação em flor. O outono também é agradável, com menos visitantes e luz suave ao fim da tarde.
Calçado fechado, água e um casaco para o vento são essenciais em qualquer altura do ano. Uns binóculos fazem toda a diferença para observar os ninhos sem perturbar as aves, que devem ser vistas sempre à distância.