Lisboa é uma das cidades mais antigas da Europa ocidental e o seu nome mudou várias vezes ao longo de quase três mil anos, à medida que fenícios, romanos, visigodos e muçulmanos por lá passaram. Mas de onde vem, afinal, a palavra «Lisboa»? A resposta curta é que ninguém sabe ao certo a origem do primeiro nome, e que o atual é o resultado de uma longa evolução do nome romano.
A lenda de Ulisses
A explicação mais antiga e mais romântica atribui a fundação da cidade a Ulisses, o herói da Odisseia, que teria passado pelo Tejo no regresso de Troia. A ideia já circulava na Antiguidade e ganhou força com os autores do Renascimento, que gostavam de dar às cidades origens ilustres. É uma lenda: não existe qualquer prova de que o nome venha de Ulisses, e a semelhança entre «Olisipo» e «Ulisses» é apenas sonora.
Fenícios e o nome pré-romano
A arqueologia mostra que, por volta do século VIII a.C., já existia um povoado na colina do Castelo com contactos regulares com mercadores fenícios, que procuravam no Tejo um bom porto de abrigo.
Daí nasceu outra explicação muito repetida: o nome viria do fenício «Alis Ubbo», que significaria «enseada amena» ou «porto seguro». É uma hipótese sugestiva, mas não está demonstrada. Muitos estudiosos consideram que «Olisipo» pode ter origem numa língua indígena pré-romana, e o significado original continua por esclarecer.
Olisipo, a cidade romana
Os romanos chegaram à Península Ibérica em 218 a.C., durante a Segunda Guerra Púnica, mas a presença em Olisipo só fica documentada mais tarde, por volta de 138 a.C., quando o general Décimo Júnio Bruto usou a cidade como base nas campanhas contra os lusitanos.
No tempo de Júlio César, a cidade recebeu o nome de «Felicitas Iulia Olisipo» e tornou-se um município de cidadãos romanos, um estatuto raro na Lusitânia. Prosperou com o porto e com a produção de preparados de peixe, como o garum, de que restam vestígios na Baixa.
De Olisipona a al-Lixbûna
Com o fim do Império Romano do Ocidente, a cidade passou por suevos e visigodos, e o nome surge em fontes da época com formas como «Olisipona». Em 714, já no início da ocupação muçulmana da Península, Lisboa passou a integrar o al-Andalus e o nome foi adaptado ao árabe como «al-Lixbûna» ou «al-Ushbûna». Desse período ficaram a cerca moura, o traçado de bairros como Alfama e muitas palavras do vocabulário português.
Lixboa e Lisboa
Em 1147, D. Afonso Henriques conquistou a cidade com a ajuda de cruzados que seguiam para a Terra Santa. Nos documentos medievais portugueses o nome aparece escrito de várias maneiras, como «Lixbõa» e «Lixboa», e foi estabilizando até à forma atual. Por volta de 1255, no reinado de D. Afonso III, a corte fixou-se em Lisboa, que passou a ser considerada a capital do reino.
A abreviatura «Lx», hoje muito usada, vem precisamente dessa grafia antiga com «x», e não de qualquer influência árabe direta. A forma como os lisboetas pronunciam o «s» de Lisboa, com som de «ch», também não é herança árabe: é uma característica geral do português europeu, que dá esse som ao «s» antes de consoante.
Um nome com camadas
Da hipótese fenícia à lenda de Ulisses, passando pelos romanos e pelo árabe, o nome de Lisboa guarda as marcas das culturas que a habitaram. Algumas origens são lenda, outras estão bem documentadas, e a primeira palavra continua a ser um pequeno mistério da história da cidade.