A Ponte da Misarela, em Vieira do Minho, foi reconstruída trinta vezes antes de ficar de pé. Pelo menos é o que a lenda conta — e a ponte, com os seus traços ligeiramente tortos, parece confirmar a história a quem a observa de perto.
Erguida sobre penedos num desfiladeiro escarpado, com uma cascata exuberante a agitar o ar em redor, a ponte tem um arco de 13 metros que remonta à Idade Média, reconstruído por volta do século XIX. É um cenário que parece pintura — e a lenda que se conta sobre ela tem a mesma intensidade visual.
Os moradores que não conseguiam erguê-la
Conta-se que os habitantes de Frades e Vila Nova decidiram construir uma ponte para ligar as duas aldeias — pessoas e animais passariam, e a comunicação entre os dois lados ficaria resolvida. Esculpiram a ponte. No dia seguinte, encontraram-na em ruínas.
Tentaram novamente. As pedras estalavam enquanto a erguiam, e a ponte voltava a desabar. Repetiram o processo várias vezes, sempre com o mesmo resultado, até que uma voz ecoou pelo desfiladeiro: “nunca conseguireis segurá-la de pé”. As pessoas entenderam que era o Diabo a falar.
O padre, o pão benzido e a fuga do Diabo
Estupefactos, os moradores recorreram ao padre da freguesia. A resposta dele foi simples: “voltai a reconstruí-la, porque desta vez não cairá”. E desta vez o padre acompanhou-os — com um pão benzido escondido debaixo do capote.
Quando colocaram a última pedra, a ponte começou a abanar, ameaçando ceder pela trigésima vez. Foi nesse momento que o padre lançou o pão benzido sobre a estrutura e a benzeu “em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo”.
O Diabo abandonou o local apressadamente — mas deixou a marca do seu ombro na pedra, o que explica, segundo a lenda, porque a ponte tem traços ligeiramente tortos.
A explicação histórica é mais prosaica: a ponte foi construída há séculos com mão de obra pouco qualificada, e as irregularidades são o resultado normal de uma construção medieval em pedra sem instrumentos de precisão. Mas a lenda do ombro do Diabo é mais memorável — e por isso é a que sobreviveu.
A lenda da fertilidade
Para além da Ponte do Diabo, a Misarela tem uma segunda lenda — esta associada à vida, não à destruição. Numa época sem acompanhamento médico durante a gravidez, a perda de filhos antes do nascimento era comum.
Acreditava-se que uma mulher que tivesse perdido um filho e voltasse a engravidar deveria ir à Ponte da Misarela à meia-noite, acompanhada de duas pessoas que impediriam a passagem de animais enquanto o ritual durasse.
Os três tinham de esperar até que uma quarta pessoa passasse pela ponte. Essa pessoa era convidada a “batizar” a criança ainda na barriga da mãe — com um jarro, uma corda e um ramo de oliveira.
Enchia o jarro com água do rio, molhava o ramo, desenhava uma cruz na barriga da mãe e dizia uma fórmula que terminava com a atribuição de um nome: Gervás para rapaz, Senhorinha para rapariga.
Cumprido o ritual, todos voltavam a casa — e, segundo a tradição, os bebés nasciam com saúde, tanto o que motivou o ritual como os filhos seguintes.
O que ficou registado
Esta versão da lenda foi recolhida pelo Centro de Estudos Ataíde Oliveira (CEAO), dedicado ao estudo da tradição oral portuguesa. Como em toda a tradição oral, existem variações — outras versões podem diferir em detalhes, mas a estrutura central — a ponte que não ficava de pé, o padre que a benzeu, o Diabo que deixou marca — mantém-se reconhecível em todas.
A Ponte da Misarela foi classificada como Imóvel de Interesse Público em 1993.
A Ponte da Misarela tem duas lendas que parecem pertencer a registos opostos — uma do Diabo e da destruição, outra de Deus e da vida — e que coexistem no mesmo arco de pedra sobre o mesmo desfiladeiro.
Os trilhos de acesso são íngremes, a paisagem corta a respiração literalmente, e a ponte continua de pé, torta, há séculos. Seja qual for a explicação que se prefira, funcionou.






