Em 1487, D. João II enviou dois homens em busca da Índia. Não em naus, não com frota, não com qualquer aparato. Disfarçados de mercadores, a cavalo, treinados por cosmógrafos régios e pelo rabino de Beja para que o disfarce resistisse a qualquer escrutínio.
Chamavam-se Pêro da Covilhã e Afonso Paiva, e a missão era simples de enunciar e quase impossível de executar: descobrir o caminho marítimo para a Índia e encontrar o mítico reino do Preste João.
Onze anos depois, Vasco da Gama chegaria a Calecute seguindo, sem o saber explicitamente, o caminho que Pêro da Covilhã tinha desenhado.
De Santarém a Calecute, a cavalo e a pé
A rota que percorreram lê-se hoje como um itinerário improvável: Santarém a Valência, atravessando o sul da Península Ibérica. Depois Barcelona, de onde partiram de barco para Nápoles.
Dali para o arquipélago grego, desembarcando em Rodes. Seguiram para Alexandria, no Egipto, mantendo o disfarce de mercadores — e quase morreram ali, vítimas das febres do Nilo que matavam viajantes europeus com regularidade. Recuperaram, foram a cavalo até Roseta e de barco até ao Cairo.
A partir do Cairo, atravessaram o deserto junto ao Mar Vermelho e cruzaram a Arábia até às portas do Oceano Índico. Chegaram a Adem em 1488. Foi aí que se separaram — Afonso Paiva rumou à Etiópia, à procura do Preste João; Pêro da Covilhã seguiu para a Índia, combinando reencontro no Cairo, dentro de noventa dias, em 1491.
O que Pêro da Covilhã descobriu em Calecute
Pêro da Covilhã chegou à Índia em novembro de 1488. E em Calecute percebeu, praticamente de imediato, o que os portugueses procuravam há décadas: a origem da canela, da noz-moscada, e o facto de que Calecute era o centro nevrálgico de toda a rota das especiarias.
Não se limitou a isso. Percorreu a costa oriental da África e registou uma observação que se revelaria decisiva: depois de se dobrar a ponta sul de África — mais tarde chamada Cabo das Tormentas, depois Cabo da Boa Esperança — chegava-se facilmente a Calecute. Era exatamente a informação que faltava para transformar uma teoria de navegação numa rota concreta.
Foi com base nestas anotações que Vasco da Gama, anos depois, decidiu atravessar o Índico directamente para Calecute em vez de seguir cautelosamente a costa.
O reencontro que não aconteceu
Em janeiro de 1491, Pêro da Covilhã voltou ao Cairo, como tinha sido combinado. Afonso Paiva não estava lá. Em vez dele, encontrou o rabino de Beja e outro judeu português, que lhe trouxeram a notícia: Paiva tinha morrido de peste no início desse mesmo mês, na Etiópia, sem ter cumprido a missão de encontrar o Preste João.
Pêro da Covilhã escreveu o seu relatório para o rei — um relatório que, segundo tudo indica, nunca chegou a Lisboa. As armadas de Vasco da Gama e de Pedro Álvares Cabral foram preparadas com pressupostos errados sobre a religião dominante na Índia e sem informação sobre os ventos de monção que determinam a navegação no Índico. Se o relatório tivesse chegado, talvez essas viagens tivessem corrido de forma diferente.
Em vez de regressar, Pêro da Covilhã voltou a Adem e depois seguiu para a Etiópia — para terminar a missão que o companheiro morto não tinha conseguido cumprir.
O reino que não era um reino
O que encontrou na Etiópia não era o mítico império cristão e poderoso que a lenda do Preste João prometia. Era um povo pobre, numa posição frágil, tentando sobreviver à pressão dos vizinhos muçulmanos. A lenda e a realidade não coincidiam — mas Pêro da Covilhã já lá estava, e a Etiópia precisava de gente com a experiência que ele tinha.
Ficou. Em 1508, com a morte do imperador e a ascensão da rainha Helena, foi convidado para conselheiro régio. Pediu para regressar a Portugal — o rei seguinte, Lebna Dengel, não o deixou partir. Acabou por receber terras, exercer cargos administrativos, e constituir família na Abissínia.
Nunca mais voltou a Portugal.
O relato que sobreviveu
Em 1521, já velho, enviou ao padre Francisco Álvares o relato das suas viagens. Foi publicado em Lisboa em 1540, com o título Verdadeira Informação das Terras do Preste João das Índias.
É praticamente tudo o que sabemos sobre o homem cujas observações ajudaram a abrir o caminho marítimo para a Índia — um caminho que ele próprio nunca usaria para voltar a casa.
Hoje tem o rosto em dois monumentos: no Padrão dos Descobrimentos em Lisboa, sétimo na fila, atrás do Infante D. Henrique; e na sua cidade natal, a Covilhã, numa estátua junto a um mapa gravado no chão que traça as viagens que fez e da qual nunca regressou.
Vasco da Gama seguiu o caminho. Pêro da Covilhã tinha-o desenhado anos antes, a partir de uma vida que escolheu — ou foi forçado a aceitar — nunca mais ver Portugal.







