Natureza

Fósseis na pedra de Lisboa: os rudistas com mais de 90 milhões de anos que se pisam na Baixa

Fósseis na pedra de Lisboa: os rudistas com mais de 90 milhões de anos que se pisam na Baixa
Fósseis na pedra de Lisboa: os rudistas com mais de 90 milhões de anos que se pisam na Baixa

Na Praça do Comércio, entre os passos de quem atravessa para o Cais das Colunas, a pedra clara do chão tem pequenas rodelas e manchas com forma de cone.

Não são defeitos nem desgaste. São cortes de conchas de animais que viveram num mar quente e pouco profundo, onde hoje está Lisboa.

Esses animais chamam-se rudistas. E a pedra onde ficaram presos é o lioz, o calcário que construiu boa parte da cidade.

O que é o lioz e de onde vêm os fósseis

O lioz é um calcário do Cretácico da região de Lisboa e Sintra. O Breve guia de Paleontologia urbana, de Carlos Marques da Silva e Sofia Pereira (2023) descreve-o como uma rocha microcristalina e bioclástica, ou seja, feita em grande parte de restos de seres vivos.

Os rudistas eram bivalves, parentes distantes das amêijoas, mas com uma forma muito diferente. Uma das valvas ficava fixa ao fundo e crescia em cone; a outra funcionava como tampa.

Surgiram no Jurássico Superior e extinguiram-se no fim do Mesozoico, há cerca de 66 milhões de anos, na mesma altura dos grandes dinossauros.

No Cenomaniano, entre 100 e 94 milhões de anos atrás, foram os principais construtores das plataformas de calcário nos mares tropicais.

Funcionavam como os corais funcionam hoje: acumulavam-se uns sobre os outros e formavam bancos.

NOTA DO AUTOR

A Praça do Comércio não é o único local em Lisboa (nem no país) onde foi usado calcário lioz. O Mosteiro dos Jerónimos, a Torre de Belém e o Palácio Nacional de Mafra também usaram, total ou apenas em alguns detalhes, esta pedra na sua construção.

É por isso provável, embora não documentado, que estes monumentos possam também ter fósseis de rudistas. Quando voltar a visitá-los, olhe para os detalhes com muita atenção. Para além de observar pedaços da história portuguesa, pode ainda descobrir vestígios com milhões de anos.

Como os reconhecer na pedra

O mesmo guia distingue dois grupos que se encontram com frequência no lioz:

  • Radiolitídeos: a valva fixa tinha forma de cone. Cortada de través, aparece na pedra como uma rodela; cortada ao comprido, parece um funil ou um copo.
  • Caprinulídeos: mostram uma estrutura em alvéolos, com pequenos canais lado a lado na parede da concha. São muitas vezes confundidos com caracóis fósseis (gastrópodes).

Segundo os autores, estes fósseis veem-se em pavimentos, monumentos, escadas e até em bancadas de cozinha. A Praça do Comércio e as fachadas da Baixa são dos sítios onde aparecem com mais facilidade. O lioz foi ainda reconhecido como Global Heritage Stone Resource, uma distinção internacional para pedras com longa história de uso.

Fósseis na pedra de Lisboa: os rudistas com mais de 90 milhões de anos que se pisam na Baixa

Porque vale a pena olhar para o chão

Uma rocha com fósseis guarda o retrato de um ambiente que já não existe. A presença de rudistas indica um mar quente, raso e cheio de vida, muito diferente do Atlântico frio que hoje banha a costa portuguesa. A geologia lê estas pistas como se lê um arquivo.

Para quem passeia pela cidade, a consequência é simples: um degrau de igreja ou um lancil antigo podem ser uma pequena coleção de paleontologia, sem vitrine nem bilhete. Também a calçada portuguesa tem uma história curiosa, embora seja feita de outras pedras.

Da próxima vez que pisar a pedra clara da Baixa, vale a pena baixar os olhos durante alguns segundos.

Se aqueles animais construíram bancos inteiros no fundo de um mar tropical, que outros mares estarão guardados nas paredes das cidades portuguesas?

Fontes

Sobre o autor

Fernando Alves

Fernando Alves é professor e editor, com formação em Ciências Naturais e mais de duas décadas de experiência a escrever e a ensinar. Assina na VortexMag artigos sobre natureza, viagens, história e atualidade, sempre com o mesmo cuidado de verificar cada facto antes de o publicar.