Em janeiro, no aniversário de D. Manuel I, a corte portuguesa preparava-se para um cortejo. Não um cortejo qualquer — um desfile com a família real e figuras da nobreza a exibir riquezas vindas do Oriente, numa Lisboa de inverno onde as ruas eram, na melhor das hipóteses, lama compactada. E entre os participantes estava Ganga, um rinoceronte branco com coleira de veludo verde decorada com rosas e cravos dourados.
Para que Ganga e o resto do cortejo não chegassem ao destino cobertos de lama, as ruas por onde passariam foram calcetadas.
Foi assim, segundo a tradição, que nasceu a calçada portuguesa.
Como um rinoceronte chegou a Lisboa
A história de Ganga começa em 1514, quando Afonso de Albuquerque, governador das Índias portuguesas, pediu ao rei de Cambaia autorização para construir uma fortaleza em Diu. O rei Modofar recusou o pedido — mas, em gesto de gratidão pelas ofertas que tinha recebido, deu a Albuquerque um rinoceronte.
Manter um rinoceronte em Goa não era prático. Albuquerque enviou-o como presente para D. Manuel I. Quando chegou a Lisboa, causou um alvoroço que ultrapassou as fronteiras portuguesas: era o primeiro rinoceronte vivo em solo europeu desde o século III. Mais de duas toneladas de animal enrugado que ninguém na Europa tinha visto em mil e duzentos anos.
D. Manuel instalou Ganga no parque do Palácio da Ribeira, junto a um elefante que já lá estava. Organizou, inevitavelmente, um combate entre os dois — perante o rei, a rainha e convidados importantes. O elefante, ao ver o rinoceronte aproximar-se, fugiu em pânico. O combate durou o tempo que um elefante demora a decidir que não quer lutar.
A morte de Ganga
Em dezembro de 1515, D. Manuel organizou uma embaixada a Roma para garantir o apoio papal à expansão portuguesa — e entre as ofertas para o Papa estava, de novo, Ganga, com a sua coleira de veludo verde. O navio que o transportava enfrentou uma tempestade violenta ao largo de Génova e afundou-se. Toda a tripulação morreu.
Ganga sabia nadar. Mas estava amarrado, e as amarras impediram-no de escapar. Afogou-se.
O corpo foi recuperado. D. Manuel mandou empalhá-lo e enviou-o para Roma de qualquer forma — uma oferta póstuma que não teve o impacto que o elefante vivo, enviado anteriormente, tinha causado. Um rinoceronte empalhado é, compreensivelmente, menos impressionante do que um vivo.
O que ficou
Ganga acabou imortalizado de formas que sobreviveram séculos. Está representado numa das guaritas da Torre de Belém. No Mosteiro de Alcobaça existe uma representação naturalista do seu corpo completo, usada como gárgula no Claustro do Silêncio.
E foi desenhado por Albrecht Dürer — a partir de uma carta de um mercador português que continha um desenho do animal, sem que Dürer alguma vez o tivesse visto pessoalmente.
A gravura de Dürer tornou-se uma das imagens mais reproduzidas da história da arte europeia, apesar de ter detalhes anatómicos incorrectos que qualquer biólogo identificaria hoje.
Quanto à calçada: as cartas régias de D. Manuel I, de 1498 e 1500, marcam o início do calcetamento de Lisboa, com granito trazido do Porto a um custo considerável. Mas a calçada que hoje reconhecemos — em calcário branco e negro, com o padrão irregular característico — só apareceu no século XIX.
Em 1842, presidiários calcetaram uma zona de Lisboa por ordem do governador do Castelo de São Jorge, e a obra foi suficientemente incomum para que cronistas da época escrevessem sobre ela — está mencionada no romance O Arco de Sant’Ana, de Almeida Garrett, e no poema Cristalizações, de Cesário Verde.
A ligação directa entre o rinoceronte de 1515 e a calçada de 1842 é mais simbólica do que documental — são três séculos de distância. Mas a história gosta de ligações como esta: um animal vindo da Índia, amarrado a um navio que afundou ao largo de Génova, deu o impulso simbólico para um pavimento que se tornou, séculos depois, uma das imagens mais reconhecíveis de Portugal no mundo.







