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Na Serra do Açor, a Aldeia das Dez está nas Aldeias do Xisto mas é feita de granito – e isso diz tudo

A Aldeia das Dez, em Oliveira do Hospital, é uma aldeia de granito na rede das Aldeias do Xisto, a 460 metros na Serra do Açor, com miradouros, trilhos e uma lenda sem resolução.

VxMag by VxMag
Abr 12, 2026
in Notícias
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Na Serra do Açor, a Aldeia das Dez está nas Aldeias do Xisto mas é feita de granito - e isso diz tudo

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O nome engana. A Aldeia das Dez pertence à rede das Aldeias do Xisto — mas as casas são de granito. A razão é geológica: a aldeia fica na encosta norte do monte Colcurinho, num ponto onde o substrato muda, e o granito substituiu o xisto como material de construção dominante. É uma exceção dentro da própria rede, e isso diz-lhe qualquer coisa sobre o lugar antes de se chegar lá.

Fica a 460 metros de altitude, no concelho de Oliveira do Hospital, delineada pelo rio Alvoco. A designação de “aldeia miradouro” não é marketing — é uma descrição precisa. Dificilmente se encontra um ponto dentro da aldeia de onde não se veja a serra.

O tesouro que ninguém soube o que era

A origem do nome tem várias versões, mas a lenda mais conhecida é esta: dez mulheres que viviam na região encontraram um tesouro no interior de uma caverna no monte Colcurinho. Dividiram o conteúdo em dez partes iguais e prometeram nunca contar a ninguém o que tinham encontrado.

O segredo passou de geração em geração. O tesouro nunca foi identificado — nem o que era, nem se existiu.

É o tipo de lenda que resiste precisamente porque não tem resolução. E que dá ao nome da aldeia uma ambiguidade que uma explicação administrativa nunca teria.

Os fósforos de 1860

Em 1860, quando a indústria dos fósforos chegou a Portugal pela primeira vez, foram instaladas na Aldeia das Dez duas ou três fábricas que chegaram a empregar cerca de 50 operários. Num momento em que a aldeia tinha provavelmente menos de trezentas pessoas, isso era uma transformação económica considerável. Um dos edifícios dessas fábricas ainda existe, visível mas não visitável.

O que há para ver

A Igreja Matriz, no centro da aldeia, foi mandada ampliar em 1727 para ter dimensão suficiente para os fiéis da freguesia. No altar-mor há uma pintura maneirista que representa o martírio de São Bartolomeu — peça de qualidade invulgar para uma aldeia desta escala. A Igreja de Santa Maria Madalena, com a fachada neoclássica, tem no interior um retábulo dedicado à santa.

A casa quinhentista junto à capela de Santa Maria Madalena distingue-se pela chaminé e pelas molduras da porta principal. O Solar Pina Ferraz — Casa da Obra — é um conjunto de dois edifícios onde o mais recente, do século XIX, nunca foi terminado.

O brasão dos Pereiras está na fachada do edifício principal, testemunho de uma família que investiu aqui e não chegou a concluir o que tinha começado.

As quatro fontes de granito espalhadas pela aldeia — Fonte do Povo, Fonte do Soito Meirinho, Fonte do Cabo do Lugar e Fonte do Marmeleiro — são pausas naturais em qualquer percurso a pé. A água é fria mesmo em agosto.

O miradouro do Largo Alfredo Duarte fica no coração da aldeia, com marco de correio e cabine telefónica vermelha — dois objetos que em conjunto criam uma estranheza de época que a fotografia gosta. O Miradouro da Mimosa, à saída em direção a Oliveira do Hospital, oferece a vista mais ampla sobre a serra.

Os trilhos

Três percursos partem do Largo Alfredo Duarte. O PR1 — Pelas Várzeas do Alvoco — tem 20 quilómetros circulares e exige cerca de seis horas. O PR2 — Rota Imperial — é mais curto, com 12 quilómetros e três horas e meia. O PR3 — Nos Passos do Ermitão — cobre 10 quilómetros em cerca de duas horas e meia.

Os três são classificados como fáceis, mas as distâncias do primeiro recomendam preparação.

Onde comer

O restaurante João Brandão fica à saída da aldeia, na Quinta da Geia. O chef é holandês — Frenkel de Greeuw — e o menu combina pratos portugueses com influências externas num espaço com bar e esplanada. É o tipo de encontro improvável que acontece quando alguém de fora descobre um lugar assim e decide ficar.

Para quem prefere chanfana, cabrito assado e feijão à pedreiro sem desvios de carta, a aldeia tem opções mais tradicionais. Os coscoréis e as cavacas — doces locais com receita própria de Aldeia das Dez — fecham qualquer refeição com a especificidade que só os doces de aldeia têm.

Ao entardecer, quando a luz baixa sobre o Colcurinho e a sombra da encosta começa a cobrir a aldeia pelo fundo do vale, percebe-se porque é que as dez mulheres da lenda não contaram o que encontraram. Há lugares onde o segredo faz mais sentido do que a explicação. A Aldeia das Dez é um deles.

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