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Sortelha: dentro das muralhas, um único morador e oitocentos anos de granito

A mais bonita e melhor preservada aldeia histórica de Portugal
A mais bonita e melhor preservada aldeia histórica de Portugal

Dentro das muralhas de Sortelha vive uma pessoa. O dono do Bar do Forno, que é também o único estabelecimento ainda aberto no centro histórico. De noite, quando os visitantes saem e o portão fecha, o silêncio dentro dos muros deve ser de uma qualidade difícil de encontrar em qualquer outro lugar de Portugal.

A aldeia fica na Beira Interior, a 760 metros de altitude, encostada a um afloramento granítico que o castelo do século XII transformou em plataforma defensiva. As muralhas circulares envolvem as ruas como se a aldeia fosse um organismo que precisasse de pele.

Por que é que o interior se preservou

A resposta é contraintuitiva: preservou-se porque as pessoas saíram. Com o desaparecimento das funções defensivas, a população foi-se instalando fora das muralhas, em terrenos mais férteis e mais fáceis de trabalhar. O interior ficou para trás — e ficou exatamente como estava.

Sortelha tem hoje 450 habitantes, conhecidos como os lagartixos, mas quase nenhum dentro dos muros. A aldeia que se visita é, em grande medida, uma aldeia que o século XX não precisou de adaptar a nada.

Essa é a razão pela qual as casas de granito têm o aspeto que têm, pelo qual as ruas mantêm a escala que mantêm, pelo qual a pedra não foi substituída por betão em nenhum ponto crítico.

O castelo e as suas quatro portas

O castelo de Sortelha é o mais tardio castelo românico da Beira Interior. Foi mandado construir por D. Sancho I, com o foral concedido em 1228, e as muralhas foram erguidas ao longo do cume em reinados posteriores — D. Dinis ou D. Fernando, as fontes divergem.

As quatro entradas têm nomes que contam histórias por si mesmos: Porta da Vila, Porta Nova, Porta Falsa, Porta da Traição. Esta última não precisa de explicação adicional.

Na Torre de Menagem ainda é visível uma porta falsa e a cisterna de abastecimento de água — os dois elementos que decidiam se uma guarnição resistia ou capitulava durante um cerco.

Percorrer o anel de muralhas que circunda a aldeia demora menos de meia hora, mas a vista sobre o território que se avista lá de cima — disputado durante séculos entre Portugal e Castela — dá escala ao que ali foi construído e por que razão.

O que visitar dentro dos muros

O percurso mais natural começa na Porta da Vila e segue para o Largo do Corro. A casa número um — a mais antiga identificada — fica aqui, assim como o único restaurante dentro das muralhas, o Dom Sancho.

O pelourinho é do século XVI. A antiga câmara e prisão estão na mesma praça, como era habitual — o poder judicial e o poder executivo partilhavam edifício por razões práticas que não exigiam eufemismos.

Quem entrar pela Porta Nova passa pelas ruínas da Igreja da Misericórdia, do século XIV, e encontra as sepulturas antropomórficas escavadas diretamente na rocha.

Entre a Porta Nova e a Porta da Traição, a Cabeça da Velha — uma formação granítica que a erosão transformou numa cabeça humana reconhecível — é um daqueles acidentes geológicos que não precisam de placa para se fazerem notar.

O bracejo e o que fica nas mãos

A tecelagem do bracejo é a tradição artesanal mais característica de Sortelha. O bracejo é apanhado no campo — uma planta que cresce nas encostas — e trabalhado à mão até se transformar nas cestas que se encontram nas lojas dentro das muralhas.

É um trabalho lento, de paciência e de conhecimento acumulado, e o resultado tem uma textura que não se imita em série.

Ao fim da tarde, quando a luz muda e as sombras do granito se alongam pelas ruas, Sortelha mostra o que tem de mais difícil de fotografar: a sensação de que o tempo aqui não parou — simplesmente passou mais devagar do que no resto do país. E que esse único morador lá dentro, de alguma forma, ainda faz sentido.

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VxMag

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