Início História 25 de Janeiro de 1938: Quando a Aurora Boreal apareceu em Portugal

25 de Janeiro de 1938: Quando a Aurora Boreal apareceu em Portugal

Aurora Boreal em Portugal? Por estranho que possa parecer, já aconteceu. Conheça o relato de quem observou este belíssimo fenómeno pessoalmente.

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Aurora Boreal
Aurora Boreal

 

Foi em 25 de Janeiro de 1938: quando a Aurora Boreal apareceu em Portugal. Assistir ao fenómeno natural de luzes de uma aurora boreal é algo impossível de explicar – é caso para dizer “é melhor ver para crer”. Apesar de não haver garantia de que elas irão acontecer quando estiver à espera, vale sem dúvida a pena a viagem. Há quem pense que as auroras boreais são apenas visíveis nos países escandinavos, mas a verdade é que há outros locais onde é possível assistir.

Foi o que aconteceu em 1938, em Portugal. Um fenómeno raríssimo nas nossas latitudes invadiu os céus do país. Na altura, e devido à falta de conhecimento das gentes da época, muitos pensaram tratar-se de um sinal divino, de um anunciar do fim do mundo. Recuperámos o fabuloso relato de quem assistiu pessoalmente ao fenómeno da Aurora Boreal em Portugal. As palavras são de Adélia Barros, que na altura tinha menos de 5 anos mas guardou para sempre na sua memória este belíssimo acontecimento.

“Estávamos em pleno Inverno. Dia vinte e cinco de Janeiro de 1938.Tempo de frio, chuvas intensas e ventos fortes. Por vezes a neve resolvia presentear-nos com a sua visita. Os campos e os caminhos apareciam todas as manhãs cobertos de geada transparente como cristal, o que dificultava o acesso a esses lugares. Era necessário redobrar os cuidados nas caminhadas que não podiam deixar de ser feitas. Os agricultores tinham de deixar que a geada derretesse para poderem colher nos campos os produtos agrícolas para sua subsistência e dos seus animais domésticos.

Auroral Boreal
Aurora Boreal

Este dia estava particularmente frio. Na minha aldeia quase ninguém ousava sair à rua. Nas lareiras crepitava a fogueira e todos procuravam aninhar-se à sua volta para resistirem aos rigores das temperaturas excessivamente baixas. Na minha casa, além da fogueira habitual, tinha-se acendido o forno para cozer a broa que a minha mãe amassou como fazia sempre. É que ela não confiava a ninguém esta tarefa!

Auroral Boreal
Aurora Boreal

Se, de dia, poucas pessoas saíam de casa, quando a noite caía ninguém mais deitava o nariz fora da porta, excepto em situações especiais: buscar mais lenha para manter a lareira acesa, tratar algum animal que estivesse a necessitar de cuidados especiais ou então ir ao armazém, onde se guardavam os produtos agrícolas, abastecer-se de algum que eventualmente tivesse acabado.

Auroral Boreal
Aurora Boreal

No silêncio da noite, qualquer som, por mais insignificante, toma uma dimensão enorme. Foi o que aconteceu nessa noite: ruídos estranhos, semelhantes à queima de lenha seca, começaram a ser ouvidos por todos nós que estávamos à volta da lareira. O Manuel, nosso feitor, a quem, carinhosamente, chamávamos “Pionas,” ao ouvir estes barulhos, assomou ao postigo da porta para se inteirar do que se passava. Mal deitou a cabeça fora da pequena janela, apercebeu-se que o céu estava vermelho da cor do fogo, parecendo em chamas, donde se desprendiam raios luminosos. Gritou para todos nós: venham ver, é o fim do Mundo. De imediato gritos aflitivos se fizeram ouvir em toda a aldeia, ao mesmo tempo que se dirigiam para a Igreja onde o Senhor Padre António se encontrava, tentando acalmar os seus paroquianos. Todos nós lá de casa fizemos o mesmo, largando tudo. Só o Manuel Pionas ficou mais algum tempo para enfornar o pão que estava na masseira, tapar o forno e fechar todas as portas e janelas de casa. Só depois disso, foi ter connosco à Igreja.

Auroral Boreal
Aurora Boreal

As pessoas vinham munidas de lampiões que à pressa tinham conseguido pegar. Mas não foi necessário acendê-los, porque do céu emanavam clarões de luz dum brilho sanguinolento. As pessoas corriam desesperadamente, atropelando-se, escorregando aqui e ali sem pensar nas consequências funestas que poderiam advir dessa correria desenfreada. Uma senhora, já de certa idade, que corria e gritava ao meu lado, levando pela mão uma netinha mais ou menos da minha idade, escorregou na calçada, caiu desamparadamente e partiu um pé. Mesmo assim cheia de dores só parou na Igreja junto da multidão enorme que ali se aglomerava.

Auroral Boreal
Aurora Boreal

Os gritos aflitivos daquela boa gente enchiam a Igreja e faziam-se ouvir por toda a freguesia: É o fim do Mundo; é a guerra, acudam… O bom do Sr. Padre António tentava acalmar os seus paroquianos, explicando que o fenómeno que se estava observando, não era mais do que uma Aurora Boreal, fenómeno que era visto muitas vezes nas regiões do norte do Globo. Ao mesmo tempo ia rezando com eles.

Auroral Boreal
Aurora Boreal

Esta situação aflitiva durou algumas horas até que a luz do dia ofuscou a luz que tinha incendiado o céu durante a noite longa. Depois do dia amanhecer e com as sábias palavras do Sr. Padre, o bom povo da minha aldeia, acalmou e voltou em paz para suas casas. No entanto aquela visão dantesca perdurou por muito tempo, talvez por toda a vida, na memória daquela boa gente, assim como perdurou na minha até hoje. E já se passaram oitenta anos!…Eu tinha nessa altura quatro anos e nove meses. E essa imagem foi tão forte que consigo descrever tudo o que presenciei e reproduzir textualmente o que ouvi.

Auroral Boreal
Aurora Boreal

No dia seguinte àquele acontecimento, o jornal diário que meu Pai assinava, trazia noticiado o fenómeno observado em todo o céu de Portugal e de outros países. Claro que eu não li a notícia, mas ouvi meu pai lê -la e comentá-la, tentando explicar, da melhor maneira que sabia, as causas daquele “Belo Horrível”.”

 

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