Natureza

Por que evitamos comer animais carnívoros? A resposta tem séculos e a ciência veio confirmar o que o instinto já sabia

Por que evitamos comer animais carnívoros? A resposta tem séculos e a ciência veio confirmar o que o instinto já sabia
Por que evitamos comer animais carnívoros? A resposta tem séculos e a ciência veio confirmar o que o instinto já sabia

No supermercado encontramos bife de vaca, frango, porco, cordeiro. Nunca encontramos filete de leão, costeleta de lobo ou bife de tigre. Isto não é apenas uma questão de gosto ou de disponibilidade — é o resultado de uma decisão que a nossa espécie tomou muito antes de ter laboratórios para a explicar.

O aviso que veio da Antártida

Em 1912, durante uma expedição à Antártida, o explorador Douglas Mawson e o médico Xavier Mertz viram-se obrigados a comer os cães de trenó para sobreviver. Pareceu uma solução nutritiva. Tornou-se num pesadelo: a pele começou a descascar, o cabelo caiu e Mertz morreu em delírio.

A causa, identificada anos depois, foi envenenamento por excesso de vitamina A. O cão é um carnívoro — e o seu fígado acumula esta vitamina em doses tóxicas para o organismo humano. O caso extremo é o urso polar: uma pequena porção do fígado contém vitamina A suficiente para matar dezenas de adultos.

Esta tragédia ilustra em miniatura o problema maior de comer animais que estão no topo da cadeia alimentar.

Biomagnificação: o depósito de toxinas

Todos os animais acumulam parte do que comem. Um herbívoro que pasta erva acumula o que a erva absorveu. Um predador que come vários herbívoros herda e concentra tudo o que eles acumularam ao longo da vida. Quanto mais alto na cadeia alimentar, maior a carga acumulada.

Os metais pesados seguem exatamente este caminho. O mercúrio concentra-se nos grandes predadores marinhos — o atum e o tubarão são os exemplos mais conhecidos, e é por isso que o seu consumo deve ser moderado, especialmente em grávidas e crianças.

Os parasitas também. Predadores como o urso podem carregar o verme Trichinella, causador da triquinose — e ao contrário dos parasitas habituais, os que habitam animais de regiões frias podem sobreviver semanas no congelador, morrendo apenas com cozedura a temperaturas elevadas.

A matemática da energia

Do ponto de vista económico e ecológico, criar carnívoros para consumo seria um desastre. A regra dos 10% estabelece que, a cada degrau da cadeia alimentar, se perde cerca de 90% da energia disponível. Para produzir um quilo de carne de leão seria necessário gastar toneladas de carne de outros animais.

É incomparavelmente mais eficiente comer o herbívoro — que transforma a erva diretamente em proteína — do que comer o predador que comeu o herbívoro. Criar predadores para abate seria literalmente produzir menos comida gastando muito mais.

A qualidade da carne também não convida

Para os nossos antepassados, caçar um predador era um péssimo negócio por mais uma razão: a recompensa era magra. Animais que passam a vida a caçar têm carne fibrosa, dura e com pouca gordura — o oposto do que um caçador-recolector precisava para obter calorias rapidamente. Além do risco óbvio de confrontar um animal com garras e presas, o esforço raramente compensava.

Do instinto ao tabu

O que começou como uma vantagem biológica tornou-se cultura e depois religião. As leis kosher do judaísmo e halal do islão proíbem explicitamente o consumo de aves de rapina e animais com garras para matar.

Na Amazónia, o conceito de “peixe reimoso” afasta o consumo de grandes predadores — piranhas e certos bagres — por quem está doente ou ferido, refletindo a perceção de que essa carne pode atrasar a recuperação.

As exceções que confirmam a regra

Os povos Inuítes comem foca e urso — mas por falta de alternativas no gelo ártico. E mesmo eles aprenderam por experiência própria a nunca comer o fígado do urso polar.

O salmão e o bacalhau são predadores que consumimos regularmente, mas mesmo neles o custo biológico está presente — é por isso que as recomendações sobre consumo de peixe de predadores incluem sempre limites.

A preferência humana pelos herbívoros não é um acidente cultural. É uma decisão sábia que a nossa espécie foi tomando ao longo de milénios — e que os laboratórios do século XX vieram confirmar com nomes científicos para o que o instinto já sabia.

Sobre o autor

Fernando Alves

Fernando Alves é professor e editor, com formação em Ciências Naturais e mais de duas décadas de experiência a escrever e a ensinar. Assina na VortexMag artigos sobre natureza, viagens, história e atualidade, sempre com o mesmo cuidado de verificar cada facto antes de o publicar.