A cerca de 5.000 quilómetros debaixo dos nossos pés, existe uma esfera de metal sólido, aproximadamente do tamanho da Lua, que gira de forma independente do resto do planeta — como um pião a rodar dentro de outro pião maior. E, segundo investigação recente, o seu comportamento está a mudar de forma inesperada.
Um objeto que ninguém consegue observar diretamente
O núcleo interno da Terra, descoberto em 1936 pela sismóloga dinamarquesa Inge Lehmann, é uma bola sólida de ferro e níquel, envolta por uma camada exterior de metal líquido — o núcleo externo — que lhe permite girar de forma ligeiramente independente da rotação da superfície e do manto do planeta.
Como é fisicamente impossível observar ou recolher amostras diretas desta profundidade, tudo o que se sabe sobre o seu movimento vem do estudo indireto de ondas sísmicas geradas por grandes sismos, que atravessam o planeta inteiro e são registadas do outro lado.
Uma investigação de décadas com resultados divididos
Durante décadas, cientistas debateram exatamente como o núcleo interno se move: investigação anterior indicava que, na década de 1970, o núcleo interno girava ligeiramente mais depressa do que a superfície da Terra.
Um estudo publicado em 2024 na revista científica Nature, liderado por investigadores da Universidade do Sul da Califórnia, analisou ondas sísmicas de sismos repetidos ao longo de décadas e confirmou que essa rotação começou a abrandar por volta de 2010 — e que, entre 2008 e 2023, o núcleo interno terá mesmo começado a girar em sentido contrário ao da superfície.
O que significa, exatamente, “girar ao contrário”
É importante um esclarecimento técnico: o núcleo não inverteu subitamente o sentido físico da sua rotação no espaço. O que aconteceu foi que a sua velocidade relativa em comparação com a superfície da Terra mudou — de mais rápida para mais lenta, o que, do ponto de vista de um observador fixo na superfície, parece equivaler a um movimento inverso.
Segundo a CNN, é semelhante ao efeito de ver um carro que abranda a ultrapassar-nos aparentar estar a andar para trás, quando na realidade apenas foi mais lento do que nós.
Um possível ciclo de 70 anos
Vários investigadores acreditam que estas mudanças de velocidade não são aleatórias, mas seguem um padrão cíclico com uma duração aproximada de 70 anos — o que ligaria esta descoberta atual a um padrão semelhante já observado entre o final da década de 1960 e o início da década de 1970.
Se este modelo cíclico estiver correto, os cientistas estimam que o núcleo poderá voltar a acelerar dentro dos próximos cinco a dez anos.
Uma possível ligação à duração do dia
Alguns investigadores associam estas variações de velocidade do núcleo interno a mudanças mínimas, medidas em milissegundos, na duração exata de um dia na Terra — um efeito demasiado pequeno para ser sentido no dia a dia, mas mensurável com instrumentos de alta precisão.
O que isto significa para nós, na prática
Apesar do fascínio científico, os investigadores são claros: não há evidência de que este fenómeno tenha qualquer efeito percetível na vida quotidiana à superfície — o interesse desta descoberta está sobretudo em compreender melhor a dinâmica interna do planeta, incluindo processos ligados à geração do campo magnético terrestre.
Um planeta que continua a surpreender, mesmo por dentro
Já mapeámos a superfície da Lua e de Marte com grande detalhe. E, ainda assim, o interior do nosso próprio planeta continua a revelar comportamentos que os cientistas só agora começam verdadeiramente a compreender — prova de que há ainda descobertas fundamentais por fazer, sem sequer sair da Terra.
Fontes
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