Há palavras que usamos todos os dias sem imaginar que, séculos atrás, significavam praticamente o oposto do que significam hoje. Aqui ficam três dos exemplos mais curiosos da língua portuguesa.
Azar: de “flor” a má sorte
A palavra “azar” vem do árabe az-zahr, que significava simplesmente “flor” — uma referência ao desenho floral pintado numa das faces dos dados usados em jogos árabes de azar.
Por associação com o jogo, a palavra passou a significar “acaso”, sem qualquer conotação positiva ou negativa — sentido que se mantém, por exemplo, em espanhol, onde “azar” continua a significar simplesmente “acaso”. Em português, com o tempo, o significado estreitou-se e passou a designar especificamente a má sorte.
Curiosamente, a palavra inglesa “hazard” partilha a mesma origem árabe, chegada ao inglês através do francês antigo “hasard” — e mantém até hoje esse sentido de risco.
Sorte: de “destino” a boa sorte
“Sorte” vem do latim sors, que significava “o destino de cada um”, “a porção que cabe a cada pessoa na vida” — sem qualquer indicação se essa porção era boa ou má.
Ao longo dos séculos, o português foi progressivamente associando a palavra apenas ao lado positivo desse destino, até “sorte” passar a significar, quase exclusivamente, o acaso favorável — o oposto exato do caminho percorrido pela palavra “azar”.
Fortuna: de “acaso” a riqueza
“Fortuna” tem uma história parecida. Vem do latim fortuna, que originalmente significava apenas “boa sorte” ou “acaso favorável” — associado, em Roma antiga, à deusa Fortuna, personificação do destino e da sorte.
Com o tempo, e por associação entre boa sorte e prosperidade material, a palavra deslizou de sentido até passar a significar, sobretudo, riqueza acumulada — o significado que hoje domina quase por completo o uso do termo em português.
Palavras que carregam histórias inteiras
O que estes três exemplos têm em comum é revelador: todos giram em torno da ideia de acaso e destino, e todos, com o tempo, se especializaram — uns para o lado positivo, outros para o negativo.
Da próxima vez que disseres “que azar” ou “que sorte”, vale a pena lembrar que, séculos atrás, essas duas palavras podiam, em certos contextos, significar exatamente a mesma coisa.
Fontes
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