Na Serra do Açor, encastrada entre penedos de quartzito sobre a nascente do rio Ceira, Fajão é uma das Aldeias do Xisto com uma história de determinação coletiva pouco comum: quando foi integrada na rede, os habitantes que tinham casas mais modernas optaram por as demolir e reconstruir em xisto, segundo a arquitetura tradicional. Não foi imposição — foi decisão própria.
O resultado é uma aldeia de Pampilhosa da Serra onde o xisto domina tudo, em várias tonalidades, com portas de madeira, janelas com cortinados, varandas com vasos de flores e telhados de lousa.
Os Contos de Fajão e o museu
A aldeia tem um museu próprio — com xilogravuras, aguarelas e objetos históricos da terra, incluindo o primeiro telefone público de Fajão. O espólio é pequeno mas denso.
Ligados ao museu estão os “Contos de Fajão” — 24 textos recolhidos e publicados em 1989 por Monsenhor Nunes Pereira, cada um com uma xilogravura associada feita pelo próprio autor.
Grande parte remontam à Idade Média, tendo o Juiz de Fajão como personagem central — símbolo do espírito comunitário transmitido de geração em geração. As xilogravuras estão expostas no museu e podem ser vistas por qualquer visitante.
A Capela de Nossa Senhora da Guia
Construída sobre um templo primitivo do século XVI, a capel de Nossa Senhora da Guia tem projeto do arquiteto Alves Martins — uma linguagem arquitetónica moderna que dialoga com a pedra antiga. O altar no interior foi idealizado por Monsenhor Nunes Pereira, inspirado nos primeiros templos do cristianismo.
A decoração assenta em seis painéis do pintor Guilherme Filipe, habitante de Fajão, com cenas da vida de Nossa Senhora, paisagens e rostos da própria aldeia. É uma das capelas mais invulgares da rede de Aldeias do Xisto — arte contemporânea numa construção sobre fundações medievais.
A Igreja Matriz e a data na pedra
A Igreja Matriz, dedicada à Senhora da Assunção, foi edificada no século XVIII sobre o templo primitivo do século XVI. A construção começou em 1788 e terá terminado em 1789 — uma pedra de xisto gravada com essa data na fachada testemunha-o.
Os percursos e os Penedos de Fajão
Dois percursos pedestres merecem destaque: o PR1 PPS — Subida aos Penedos, circular de 4,1 quilómetros, e o PR2 PPS — Voltinhas do Ceira, circular de 6,5 quilómetros e de dificuldade fácil. O segundo passa pelos Penedos de Fajão, um dos pontos mais fotogénicos dos arredores.
A piscina pública, especialmente no verão, oferece banhos com vista sobre a aldeia e os penedos que a enquadram.
As aldeias nas redondezas
Benfeita, Aldeia das Dez, Sobral de São Miguel e Vila Cova de Alva são outras aldeias de xisto a curta distância. Piódão, Chãs d’Égua e Foz d’Égua, embora fora da rede oficial, valem também a paragem — cada uma com o seu carácter específico dentro da mesma Serra do Açor.
Fajão é uma aldeia que decidiu ser o que é: os habitantes destruíram o que não pertencia para reconstruir o que pertencia. Esse esforço coletivo — raro, deliberado, e irreversível — é o que torna Fajão diferente de qualquer outra Aldeia do Xisto.







