Natureza

Porque as andorinhas voltam sempre ao mesmo ninho depois de milhares de quilómetros

Porque as andorinhas voltam sempre ao mesmo ninho depois de uma viagem de milhares de quilómetros. O papel da memória e do campo magnético da Terra.

Porque as andorinhas voltam sempre ao mesmo ninho depois de milhares de quilómetros
Porque as andorinhas voltam sempre ao mesmo ninho depois de milhares de quilómetros

Todos os anos, na mesma época, a mesma andorinha pousa no mesmo beiral, sobre a mesma viga, no mesmo ninho que deixou sete meses antes.

Fê-lo depois de uma viagem de mais de 10 mil quilómetros, atravessando o Sara e o Mediterrâneo, sem mapa, sem pontos de referência óbvios durante grande parte do percurso.

Como é que isto é possível?

Um sistema de navegação com várias camadas

As andorinhas não se orientam ao acaso, nem seguem apenas as correntes de ar. Combinam vários mecanismos de navegação em simultâneo.

O mais estudado é a magnetorreceção: pequenos depósitos de magnetite, um óxido de ferro sensível a variações do campo magnético terrestre, presentes no bico e nos ouvidos, ajudam a ave a manter uma direção geral mesmo sobre território desconhecido.

A isto junta-se uma bússola solar, usada durante o dia, e a memorização de acidentes geográficos como vales, cordilheiras e linhas de costa.

Chegar à Europa não é chegar a casa

Encontrar o continente certo resolve apenas parte do problema. A andorinha ainda precisa de encontrar o pátio exato, a viga exata, o ninho exato.

Segundo um estudo publicado na revista Scientific Reports, que analisou 149 ninhos em três ilhas da Coreia do Sul, cerca de 40% dos indivíduos regressam exatamente ao ninho do ano anterior, que é depois reforçado com lama e palha.

Esta fidelidade ao local, conhecida como filopatria, é mais forte em aves adultas e experientes do que em indivíduos jovens.

Porque vale a pena voltar ao mesmo sítio

Construir um ninho de raiz é um investimento enorme: pode exigir mais de mil viagens de recolha de lama e palha.

Reutilizar um ninho existente liberta esse tempo para o que realmente importa — acasalamento, incubação e alimentação das crias — o que ajuda a explicar porque a fidelidade ao ninho é tão vantajosa em termos evolutivos.

Um bom ninho pode, aliás, ser reutilizado por diferentes casais ao longo de dez a quinze anos.

O que fica por explicar

Ainda não se sabe ao certo como as aves jovens, que fazem a primeira viagem sem qualquer experiência prévia, conseguem orientar-se apenas com base num programa direcional geneticamente codificado.

Só nas viagens seguintes, à medida que acumulam experiência, começam a construir aquilo que os investigadores descrevem como um mapa mental mais flexível da rota.

Um regresso que continua a espantar

Ver uma andorinha voltar, na primavera, ao mesmo local exato onde nasceu ou criou os filhotes no ano anterior não é coincidência nem sorte.

É o resultado de um dos sistemas de navegação mais sofisticados do mundo animal — e um lembrete de que a natureza resolve, em silêncio, problemas que a nós nos pareceriam impossíveis.

Sobre o autor

Fernando Alves

Fernando Alves é professor e editor, com formação em Ciências Naturais e mais de duas décadas de experiência a escrever e a ensinar. Assina na VortexMag artigos sobre natureza, viagens, história e atualidade, sempre com o mesmo cuidado de verificar cada facto antes de o publicar.