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Estação de São Bento: 20.000 azulejos e uma freira que nunca saiu

Estação de São Bento
Estação de São Bento

Quem entra na Estação de São Bento pela primeira vez costuma parar a meio do átrio. Não por causa dos comboios — por causa das paredes.

Os painéis de azulejos azul e branco sobem até ao teto, cobrem 551 metros quadrados de superfície e contam histórias em sequência: batalhas medievais, cenas de trabalho no campo, costumes etnográficos de diferentes regiões do país. São mais de 20.000 azulejos, pintados entre 1905 e 1908 por Jorge Colaço na Real Fábrica de Louça de Sacavém.

É uma das estações ferroviárias mais fotografadas do mundo. E continua a ser, acima de tudo, uma estação em funcionamento.

A freira que atrasou tudo

O edifício que existia antes da estação era o Convento de São Bento de Avé Maria. Quando as ordens religiosas foram extintas em 1834, os mosteiros fecharam de imediato — mas os conventos só podiam encerrar quando a última residente falecesse. No caso de São Bento de Avé Maria, essa última freira viveu mais de cinquenta anos depois do decreto.

Foi por isso que os planos para a estação só começaram em 1892. O edifício abriu provisoriamente em 1896, D. Carlos I lançou a primeira pedra em 1900, e as obras ficaram concluídas em 1916. Oito décadas de espera por causa de uma mulher que se recusou a morrer depressa.

A lenda da freira que ainda percorre os corredores da estação — os relatos de gemidos e sons inexplicáveis — é, provavelmente, o tipo de história que uma estação com esta história merecia ter.

O edifício e quem o desenhou

O projeto é do arquiteto José Marques da Silva, formado em Paris e fortemente influenciado pela arquitetura francesa da época. A fachada neomanuelina contrasta com a sobriedade do interior — uma escolha que separa o que a cidade vê do que o viajante encontra quando entra.

O átrio foi classificado como Imóvel de Interesse Público a 31 de dezembro de 1997. A classificação chegou tarde — o espaço merecia-a desde o dia em que abriu.

O comboio do Douro

São Bento serve hoje as linhas urbanas do Porto — Aveiro, Minho, Braga, Guimarães. Mas há uma ligação que justifica uma menção separada: a Linha do Douro, que parte daqui em direção ao Pocinho.

O percurso acompanha o rio durante horas, por encostas de vinha em socalco, aldeias encostadas à margem e túneis que abrem para panorâmicas que não se esperam. É uma das viagens de comboio mais recompensadoras da Península Ibérica — e começa neste átrio de azulejos, entre passageiros de trabalho e turistas de câmara levantada.

O que fica a pé

A Sé do Porto e a Igreja de Santo Ildefonso ficam a menos de dez minutos a pé e têm, cada uma, painéis de azulejo que complementam o que se viu na estação. A Torre dos Clérigos, a Livraria Lello e o Mercado do Bolhão estão no mesmo raio.

São Bento é, por isso, um ponto de partida natural para qualquer percurso pelo centro histórico do Porto — não porque esteja no mapa turístico, mas porque é literalmente o sítio onde se chega de comboio.

Ao fim do dia, quando o movimento abranda e o átrio fica mais vazio, os azulejos ganham outra qualidade. A luz artificial apanha os painéis de um ângulo diferente, os azuis ficam mais frios, e as cenas de batalha e de colheita que Jorge Colaço pintou há mais de cem anos continuam ali, indiferentes ao horário dos comboios.

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