Por baixo da Praça Almeida Garrett, em frente à Estação de São Bento, corre um rio que a maioria dos portuenses desconhece. O Rio da Vila formou-se pela junção de dois mananciais que desciam de pontos diferentes da cidade até se encontrarem neste ponto, seguindo depois para desaguar no Douro perto da Praça da Ribeira.
É um rio antigo: aparece já num documento de doação do burgo portucalense ao Bispo D. Hugo em 1120, assinado por D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques. Nesse documento era chamado Canallem maiorum — o “canal maior” — por contraposição ao “canal menor”, que era o Rio Frio, situado mais a poente.
Os dois mananciais e o percurso pela cidade
Um dos mananciais nascia na zona da atual Praça do Marquês de Pombal, descia pela atual Avenida dos Aliados, e passava pela atual Praça da Liberdade, alimentando campos e hortas ao longo do caminho.
O outro originava-se nas elevações da Fontinha, descia ao longo do atual Mercado do Bolhão — onde um pequeno ribeiro se juntava ao curso principal — e seguia pelo que hoje é a Rua de Sá da Bandeira. Os dois cursos encontravam-se onde está hoje a Praça Almeida Garrett.
Como o rio foi encanado progressivamente
O encanamento do Rio da Vila foi gradual, ao longo de séculos. Em 1336, D. Afonso IV iniciou a construção de novas muralhas na cidade, e no reinado de D. Fernando encanaram-se os ribeiros que confluíam no largo junto ao antigo Convento de São Bento da Avé-Maria.
Em 1736, cobriu-se a parte mais próxima da Ribeira com a construção da Rua de São João. Em 1875, com a abertura da Rua Mouzinho da Silveira, encanou-se a parte que ainda estava à superfície.
E com a construção da Avenida dos Aliados, na segunda década do século XX, os próprios mananciais foram finalmente condenados ao subsolo.
As razões eram práticas: o rio recebia esgotos domésticos e industriais, provocava inundações e deslizamentos, e tornara-se um obstáculo ao crescimento urbano. Uma fonte de vida e de abastecimento que se tinha transformado num problema de saúde pública e de circulação.
O museu subterrâneo que está a ser construído
Está em construção um projeto que vai tornar o Rio da Vila visitável: um museu subterrâneo com um percurso de 350 metros sobre o leito de água, passando por abóbadas e galerias de pedra que datam desde a época romana até aos dias atuais.
A entrada será pela Estação de São Bento, com receção, bilheteira e loja, e o espaço integrará o eixo líquido e sonoro do Museu da Cidade do Porto — uma rede de estações temáticas sobre a água e o som na cidade.
O projeto prevê também medidas de salvaguarda do património, tendo em conta a interferência das obras da futura Linha Rosa do Metro do Porto — um Plano de Salvaguarda do Património Cultural acordado para proteger as estruturas históricas durante as obras.
O que o rio foi durante séculos
Antes de desaparecer debaixo da cidade, o Rio da Vila foi, em momentos diferentes da história do Porto, fonte de água potável para chafarizes e fontes, meio de transporte entre a zona alta e a Ribeira, elemento económico que alimentava a pesca e a agricultura em redor, e símbolo identitário que inspirou lendas e tradições. Dificilmente uma lista de funções pode ser mais diversa para um único curso de água.
O Rio da Vila é um caso de patrimônio urbano que o desenvolvimento foi enterrando camada a camada durante séculos — e que agora renasce não como rio mas como percurso museológico, sob a cidade que cresceu por cima dele.
Quando o museu abrir, quem descer à entrada de São Bento vai percorrer os 350 metros do que foi, durante quase mil anos, o principal eixo de água da cidade do Porto.






