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Bordeira: toda a alma do Algarve em apenas uma aldeia

Bordeira
Bordeira

A primeira coisa que se nota ao entrar em Bordeira não é a igreja nem o largo. É o canteiro de flores à beira da rua — uma faixa de cor entre o branco das fachadas e a terra seca do Algarve interior. Pequeno, cuidado, completamente fora de moda. E por isso mesmo, difícil de esquecer.

A aldeia fica no concelho de Aljezur, a poucos quilómetros da Costa Vicentina, mas o mar aqui não se vê. Sente-se — no vento, na luz, na forma como as pessoas falam dele mesmo quando estão a falar de outra coisa.

A igreja que não é bem simétrica

No centro da aldeia, a igreja paroquial chama a atenção pela torre sineira desproporcional e pela fachada que recusa a simetria habitual.

A cal é muito branca, os elementos de cantaria sobressaem com precisão, e há trabalhos em argamassa que sobreviveram a várias campanhas de obras — a construção original é do século XV, com acrescentos manuelinos, mas a maior parte do que se vê data do século XVIII.

Vale a pena parar no largo à frente. Há sombra, há um café, e o ritmo da aldeia torna-se imediatamente legível a partir dali.

O navio que ainda está lá

A quatro quilómetros de Bordeira, a praia que leva o seu nome é hoje o que mais atrai visitantes à região — mas a costa aqui guarda histórias mais antigas do que o surf.

Em 1555, a nau espanhola La Condesa, vinda de Porto Rico carregada de prata, naufragou nestas águas. Quatrocentos e quarenta anos depois, um mergulhador chamado Vítor Cruz encontrou 50 canhões de bronze no fundo do mar, em frente à Carrapateira.

O navio continua lá — as correntes e a profundidade impedem qualquer retirada. O que se sabe dele pode ser visto no Museu do Mar e da Terra, em Aljezur.

Na aldeia vizinha da Carrapateira, no forte que vigiava a costa contra piratas, há uma pequena igreja com dois pórticos manuelinos e um sino com uma inscrição estranha gravada no bronze: WAIMATE. A origem é incerta — talvez venha de um outro naufrágio, nunca identificado.

Os apanhadores de percebe

Perto do portinho do Forno existem vestígios de um povoado sazonal islâmico do século XII — pescadores que chegavam no verão, trabalhavam a costa e partiam no inverno. A lógica não mudou muito.

Ainda hoje, em certas manhãs, é possível ver os apanhadores de percebe a descerem as falésias presos a cordas, a saltarem de rocha em rocha, a esperarem a janela certa entre duas ondas. É trabalho de precisão e de risco, feito em silêncio, com uma intimidade com o mar que não se aprende depressa.

Ali perto, o portinho da Zimbreirinha — uma plataforma de madeira encostada à arriba, quase desativada — é o que resta de um tempo em que esta costa tinha outra relação com as embarcações pequenas.

Pedralva, a dez minutos

Quem passa por Bordeira e tem tempo deve continuar até Pedralva, em Vila do Bispo. A aldeia estava completamente abandonada e foi recuperada integralmente — as casas podem ser alugadas, a arquitetura algarvia foi respeitada, e o resultado é um dos poucos casos em que a palavra “recuperação” não é eufemismo para outra coisa.

Bordeira não vive do espetáculo. Vive da acumulação de pequenos detalhes — o canteiro de flores, o sino com o nome que ninguém explica, os homens que descem as falésias de manhã cedo. Um lugar que se deixa ficar, aos poucos, sem que se perceba bem quando isso aconteceu.

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