Em 1886, Portugal cedeu a região da Casamansa, no sul do Senegal, à França. Em troca recebeu a aldeia de Cacine, na Guiné-Bissau. Foi uma daquelas trocas territoriais que as potências coloniais europeias faziam à mesa de negociações, sem grande consideração pelas pessoas que viviam nos territórios trocados.
As pessoas que viviam em Ziguinchor sentiram aquilo exactamente pelo que era: uma traição. Eram descendentes de portugueses — os chamados fijus di terra —, com apelidos portugueses, religião católica, costumes europeus. E de um dia para o outro, sem que ninguém os consultasse, deixaram de ter qualquer ligação administrativa a Portugal.
Cento e quarenta anos depois, ainda há cerca de 30 mil descendentes desses colonos em Ziguinchor.
Cinco séculos de presença
A história começa no século XV, quando navegadores portugueses exploravam a costa ocidental africana à procura de ouro, marfim, e — sem eufemismos — escravos.
Ziguinchor foi fundada em 1645 como entreposto comercial, administrado a partir da colónia portuguesa da Guiné, com sede em Cacheu. Os portugueses construíram a Fortaleza de Nossa Senhora da Conceição e estabeleceram relações próximas com os reinos locais da etnia diola.
Dessas relações nasceu uma comunidade nova: os fijus di terra, filhos de portugueses e mulheres diola. Herdaram apelidos como Afonso, Barbosa, da Fonseca. Praticavam o catolicismo, falavam crioulo, mantinham hábitos culturais europeus.
Tornaram-se comerciantes, proprietários, figuras com influência na cidade — uma elite local que tinha uma identidade própria, nem completamente portuguesa nem completamente diola, mas algo novo construído ao longo de gerações.
A troca que ninguém pediu
Quando Portugal cedeu a Casamansa à França em 1886, os fijus di terra resistiram à nova administração — mas resistir a uma decisão tomada entre potências coloniais europeias raramente muda alguma coisa.
Adaptaram-se, como tinham de adaptar-se. A administração mudou de francesa para senegalesa com a independência, décadas depois. A identidade luso-descendente, surpreendentemente, não desapareceu em nenhuma dessas transições.
O que ainda existe
Hoje, mais de 60 mil pessoas em Ziguinchor falam uma variante do crioulo da Guiné-Bissau com influências do francês e das línguas locais — um crioulo com raízes portuguesas claras, falado num país onde o português nunca foi língua oficial.
Há tradições que persistem com uma regularidade quase ritual. O “Domingo de Ziguinchor” é um momento em que a população se reúne na catedral e percorre as ruas em trajes elegantes — uma celebração de pertença que combina religião, identidade e distinção social de uma forma que remonta directamente à elite fijus di terra do século XIX.
O Carnaval, menos vibrante do que era, mantém ainda o espírito de crítica social e coesão comunitária. E a gastronomia local — arroz de coco, calulu — é uma fusão de sabores africanos com receitas portuguesas que sobreviveu a tudo: à mudança de administração, à independência, ao tempo.
O presente é complicado
Desde 1982, a região da Casamansa vive um conflito armado entre o governo senegalês e o movimento separatista MFDC. Os descendentes de portugueses, como toda a população da região, vivem divididos entre o desejo de autonomia e o receio de novos confrontos — e defendem, consistentemente, o diálogo como caminho.
Há também o desafio mais silencioso: o crioulo de Ziguinchor não tem reconhecimento oficial no Senegal, e faltam materiais educativos para garantir que as novas gerações o aprendam.
Sem reconhecimento institucional, línguas como esta tendem a desaparecer numa ou duas gerações — não por escolha de quem as fala, mas por falta de espaço onde sobreviver.
O Centro da Língua Portuguesa em Ziguinchor, com apoio de Portugal, oferece cursos gratuitos e promove a cultura lusófona. É um esforço pequeno face à escala do problema, mas é também o único elo institucional que ainda liga Portugal a uma comunidade que Portugal, em 1886, trocou por uma aldeia sem pedir a opinião de ninguém.







