Natureza

Como os salmões sabem voltar ao rio exato onde nasceram

Como os salmões sabem voltar ao rio exato onde nasceram
Como os salmões sabem voltar ao rio exato onde nasceram

Um salmão nasce num pequeno troço de rio, desce até ao mar, passa anos a alimentar-se no oceano aberto — e depois, quando chega a altura de se reproduzir, regressa exatamente ao mesmo troço de rio onde nasceu, entre milhares de outros rios possíveis.

Como é que um peixe consegue uma proeza de navegação destas?

A hipótese que um cientista testou tapando o nariz

A explicação começou a ganhar forma em 1951, quando os zoólogos Arthur Hasler e Warren Wisby propuseram que os salmões conseguem distinguir o seu rio natal pelo cheiro — uma combinação química única, memorizada quando ainda são muito jovens.

Para testar a ideia, em 1954, tapou-se as fossas olfativas de salmões antes de os libertar a montante de uma bifurcação do rio. Os salmões sem o olfato bloqueado escolheram o ramo certo do rio quase 100% das vezes; os que tinham o olfato bloqueado escolheram ao acaso, acertando apenas cerca de metade das vezes.

Uma memória gravada antes de partirem para o mar

Este processo chama-se impressão olfativa: enquanto ainda são jovens, antes de migrarem para o oceano, os salmões memorizam a assinatura química exata da água do seu rio natal — uma combinação de compostos orgânicos dissolvidos e características específicas daquele local.

Investigação mais recente sugere que esta memorização pode acontecer em várias fases, começando ainda antes de os peixes deixarem os cascalhos onde nasceram.

O oceano exige um sistema diferente

O olfato explica apenas a última etapa da viagem, junto à foz do rio — não consegue, sozinho, explicar como um salmão atravessa milhares de quilómetros de oceano aberto até encontrar a costa certa.

Para essa fase mais longa, a explicação principal envolve a deteção do campo magnético da Terra: os salmões parecem também memorizar as características magnéticas específicas do local onde entraram no oceano pela primeira vez, usando-as depois como uma espécie de bússola de longa distância no regresso.

Quando o processo corre mal

Segundo uma revisão científica publicada na Reviews in Fish Biology and Fisheries, salmões criados em viveiro, sem passarem pela sequência natural completa de água do rio durante o período crítico de memorização, tendem a errar de rio com muito mais frequência do que os salmões selvagens.

Isto reforça a ideia de que este comportamento não é apenas instinto genético cego, mas uma memória aprendida, dependente de uma sequência precisa de experiências durante os primeiros meses de vida.

Uma viagem que combina memória e magnetismo

O regresso do salmão ao seu rio natal não é uma proeza única, mas duas capacidades distintas a trabalhar em conjunto: uma bússola magnética para a travessia do oceano, e uma memória de cheiro extraordinariamente precisa para os últimos quilómetros — uma das combinações de navegação mais sofisticadas conhecidas em qualquer animal.

Fontes:

Sobre o autor

Fernando Alves

Fernando Alves é professor e editor, com formação em Ciências Naturais e mais de duas décadas de experiência a escrever e a ensinar. Assina na VortexMag artigos sobre natureza, viagens, história e atualidade, sempre com o mesmo cuidado de verificar cada facto antes de o publicar.