Em Marco de Canaveses, na freguesia de Soalhães, existe uma igreja românica do século XII que no século XVIII recebeu uma transformação completa — e o resultado é um dos interiores barrocos mais densos da Rota do Românico do Vale do Tâmega.
A igreja teve origem num mosteiro do século XII, sede de poder religioso num território importante. Foi elevada a paróquia no século XIII. Da época românica original restam apenas o portal principal e o túmulo na capela-mor — tudo o resto é a sobreposição que o século XVIII trouxe.
O interior dourado e vermelho
A talha parietal da nave é de estilo barroco, concebida provavelmente na década de 1730. O conjunto tem nove painéis figurativos em relevo, separados por elementos de talha dourada que forram também os paramentos interiores. Do lado do Evangelho, um arco com talha dourada encima a passagem para a Capela de São Miguel.
A nave tem púlpitos dos dois lados e, ao fundo, um coro alto suportado por quatro atlantes — figuras esculpidas que sustentam visualmente a estrutura.
O coro tem um varandim em painéis rendilhados de talha, e no subcoro a talha encima nichos laterais onde estão as esculturas dos próprios atlantes. As cores dominantes são o dourado e o vermelho — uma combinação que cria um efeito de calor visual em qualquer luz.
A iconografia joanina
Os elementos entalhados seguem a temática típica do período joanino: corações, flores, conchas, anjos, pássaros, motivos vegetalistas e cabeças de serafins.
Há ainda aplicação de folha metálica sobre têmpera original, em muitos casos contornada a preto — uma técnica que acrescenta definição aos relevos e que sobreviveu em bom estado em vários pontos da igreja.
Os nove painéis figurativos representam santos e episódios bíblicos: a Agonia no Horto, Nossa Senhora das Dores, o Coração de Jesus, São Martinho com capa.
Há semelhanças evidentes entre os painéis — a profusão de personagens, as vestes ricamente decoradas com padrões coloridos e invulgares — que sugerem a mesma autoria ou pelo menos a mesma escola de execução.
Monumento Nacional desde 1977
A igreja está classificada como Monumento Nacional desde 1977 — reconhecimento da raridade de um conjunto que combina vestígios românicos do século XII com uma decoração barroca quase integral do século XVIII, sem as lacunas que tantos outros templos da região sofreram com o tempo.
O que fica em redor
As ruínas romanas de Tongóbriga, um dos maiores espaços arqueológicos de Portugal, ficam nas imediações — um complexo urbano romano com termas, fórum e zona residencial que permite percorrer uma cidade inteira da época imperial.
Canaveses, aldeia típica com encanto próprio, e Amarante, banhada pelo Tâmega, completam um roteiro que pode ocupar um dia inteiro.
Para sul, o rio Douro aparece sem os socalcos e vinhedos que o caracterizam mais a montante, mas com a mesma presença que torna esta região do norte de Portugal tão densa em pontos de interesse.
A Igreja de São Martinho de Soalhães é o tipo de monumento que raramente aparece nos itinerários turísticos principais mas que, uma vez visitado, fica na memória pela densidade decorativa do interior.
Nove painéis, quatro atlantes, dourado e vermelho em todas as direções — e por baixo de tudo, um portal românico do século XII que ainda está exatamente onde sempre esteve.






