Em Trás-os-Montes, ao longo de 70 quilómetros entre os concelhos de Alfândega da Fé, Macedo de Cavaleiros, Mogadouro e Torre de Moncorvo, a construção da barragem do Baixo Sabor criou três grandes lagos onde antes corria um rio que tinha o título de “último rio selvagem de Portugal”. O Sabor perdeu esse título — mas não perdeu completamente o carácter arisco que o definia.
A barragem custou cerca de 450 milhões de euros e produz eletricidade para 300 mil pessoas. Foi a alternativa que se encontrou à barragem que estava prevista para Vila Nova de Foz Côa — uma decisão que poupou o vale arqueológico do Côa ao custo de submergir parte do vale do Sabor.
Um santuário que subiu o monte
No cimo do monte da Parada, de frente para o novo Lago dos Santuários, está um santuário do século XVIII mandado construir pela família dos Távoras — a cerca de um quilómetro do local onde esteve originalmente, antes da subida das águas.
A operação foi literal: equipas de restauradores desmontaram a igreja pedra a pedra de um lado e remontaram-na do outro, ao longo de meses. É uma das poucas situações em Portugal em que um edifício histórico foi fisicamente deslocado para escapar a uma albufeira — em vez de ser submerso ou demolido.
Junto ao santuário, um pequeno museu documenta em fotografias o processo de deslocação, com um espaço dedicado à vida de Santo Antão e uma parede de ex-votos — os objetos que os crentes deixavam para pagar promessas feitas ao santo. Há também um restaurante panorâmico e um dormitório na Casa do Romeiro, para quem quer ficar mais tempo nesta zona.
Três lagos, uma paisagem nova
Onde antes existia terra e um curso de água estreito, nasceram o Lago de Cilhades, o Lago do Medal e o Lago dos Santuários. A Foz do Azibo ficou maior e mais larga com a subida do nível.
A zona ainda está praticamente por explorar e organizar — não há autorização para novas praias fluviais, não existem barcos-casa nem casas palafitas, e os barcos de recreio são poucos. A pesca não está regulada e o regadio não é programado.
Para quem visita, isso traduz-se numa sensação de descoberta genuína — a paisagem é nova, criada pela água há relativamente pouco tempo, e ainda não foi domesticada pelo turismo.
Quem quiser fazer praia ou passear de barco nos novos lagos faz por sua conta, sem empresas organizadas a explorar as margens. As duas praias fluviais que já existiam antes da barragem — Foz do Sabor e Foz do Azibo — continuam ativas, com água que no final de agosto pode chegar aos 24 graus, surpreendentemente quente para um rio de montanha.
A natureza em redor
A área mantém-se praticamente intocada, com presença de Lontra Europeia, Águia de Bonelli e Grifo — espécies que dependem de áreas extensas sem perturbação significativa. Birdwatching, passeios botânicos e mitológicos, a Rota do Lobo e a Ecopista do Sabor são as formas organizadas de explorar esta paisagem.
À mesa, o peixe frito do rio, as amêndoas de Moncorvo e os cogumelos Pantorra completam a experiência gastronómica de uma região que combina produtos de água doce com a doçaria e os frutos secos típicos do interior transmontano.
Os Lagos do Sabor são uma paisagem que não existia há poucas décadas — criada pela engenharia, mas já com a aparência de algo que sempre esteve lá.
O santuário no monte da Parada é o símbolo mais visível dessa transição: um edifício do século XVIII que subiu a encosta para continuar a olhar para a água, ainda que a água seja agora outra.






