Natureza

Porque as abelhas constroem favos em hexágonos e não noutra forma

Porque as abelhas constroem favos em hexágonos e não noutra forma: a explicação matemática que levou dois mil anos a ser provada.

Porque as abelhas constroem favos em hexágonos e não noutra forma
Porque as abelhas constroem favos em hexágonos e não noutra forma

Um favo de mel é feito de milhares de células idênticas, todas com seis lados perfeitamente iguais. Nenhuma abelha aprendeu geometria — e, ainda assim, a solução que encontraram é matematicamente perfeita.

Um mistério que intrigou os romanos

A pergunta já intrigava o estudioso romano Marco Terêncio Varrão há mais de dois mil anos: porque escolhem as abelhas hexágonos, em vez de círculos, quadrados ou triângulos?

Varrão já suspeitava da resposta certa: entre as formas que conseguem cobrir uma superfície sem deixar espaços vazios — apenas triângulos, quadrados e hexágonos conseguem fazer isso perfeitamente — o hexágono é o que usa menos material de fronteira para a mesma área interior.

A prova que demorou dois mil anos a chegar

Só em 1999 é que esta ideia, conhecida como “conjetura do favo de mel”, foi finalmente demonstrada com rigor matemático, pelo matemático norte-americano Thomas Hales.

A prova confirma que a estrutura hexagonal usa cerca de 7% menos cera do que quadrados, e cerca de 17% menos do que triângulos, para armazenar exatamente a mesma quantidade de mel — uma diferença enorme quando se sabe que produzir cera custa muita energia às abelhas.

As abelhas não “decidem” fazer hexágonos

Curiosamente, a forma hexagonal não resulta de um plano deliberado das abelhas. As células começam por ser construídas em forma cilíndrica.

À medida que várias abelhas trabalham lado a lado, a cera ainda quente e maleável flui sob a pressão das células vizinhas, deformando-se naturalmente até formar ângulos de 120 graus — o resultado geométrico inevitável de círculos comprimidos uns contra os outros em condições específicas de temperatura e pressão.

Uma forma que também dá força

Para além de poupar cera, a estrutura hexagonal distribui o peso de forma extremamente eficiente por toda a estrutura do favo — essencial para suportar o peso do mel armazenado, das larvas em desenvolvimento e do constante movimento de milhares de abelhas.

Esta mesma propriedade estrutural é hoje usada por engenheiros humanos em materiais para aviões, pontes e painéis leves de alta resistência — uma inspiração direta da arquitetura das abelhas.

Física, não inteligência de projeto

O mais fascinante nesta história não é que as abelhas “saibam” matemática avançada, mas que as leis simples da física e da tensão superficial, aplicadas repetidamente por milhares de insetos a trabalhar em conjunto, produzam, de forma emergente, uma das soluções mais matematicamente eficientes já descobertas — muito antes de qualquer matemático a conseguir demonstrar.

Sobre o autor

Fernando Alves

Fernando Alves é professor e editor, com formação em Ciências Naturais e mais de duas décadas de experiência a escrever e a ensinar. Assina na VortexMag artigos sobre natureza, viagens, história e atualidade, sempre com o mesmo cuidado de verificar cada facto antes de o publicar.