O deserto do Sahara não está a avançar fisicamente sobre a Europa. Mas as suas partículas chegam ao continente em quantidades crescentes — e Portugal está entre os países mais afetados.
É a conclusão de um estudo publicado na revista Nature, liderado pelo Paul Scherrer Institute (PSI), na Suíça, com coautoria da investigadora Célia Alves, do CESAM da Universidade de Aveiro. O trabalho reuniu cerca de 18.500 medições diárias de concentrações de elementos químicos presentes em partículas atmosféricas, recolhidas em 103 locais rurais e urbanos europeus entre 2012 e 2021.
O que os dados mostram
No sul da Europa, a concentração média estimada de poeiras desérticas nas partículas atmosféricas foi de 5,28 microgramas por metro cúbico de ar — mais do dobro dos 2,09 registados no centro e norte do continente.
Em grande parte da Europa, os níveis aumentaram em média 0,055 microgramas por metro cúbico por ano ao longo da década analisada. Traduzido numa percentagem, isso representa uma subida entre 10% e 25% em dez anos.
Portugal é expressamente identificado pelos investigadores como uma das regiões particularmente afetadas, a par de Espanha, Itália e Grécia. Uma das razões está na trajetória habitual das massas de ar: as poeiras do Sahara podem avançar sobre o Atlântico e infletir para norte, atingindo a Península Ibérica. No sector ocidental do sul da Europa, as concentrações atingem o máximo em julho e agosto.
Episódios menos frequentes, mas mais concentrados
Um dado que contraria a intuição: entre 2012 e 2021, o número de dias classificados como intrusões de poeiras não aumentou de forma generalizada — nalguns casos até diminuiu. O que aumentou foi a concentração média de fundo.
Os episódios tornaram-se mais intensos sobretudo no sul de Itália, no Adriático, no Egeu e em partes dos Balcãs. Em Portugal, os mapas do estudo apontam principalmente para um crescimento da concentração média, sem demonstrar uma subida da frequência das intrusões.
Os riscos para a saúde
As consequências vão além do céu esbranquiçado e da camada de pó sobre automóveis e edifícios. Para o sul da Europa, os autores estimam que a exposição durante estes episódios está associada a um aumento de 0,67% da mortalidade diária e de 0,73% dos internamentos respiratórios em pessoas com mais de 15 anos. Nas crianças até aos 14 anos, a subida estimada dos internamentos respiratórios é de 2,55%.
São valores regionais, calculados com base em estudos epidemiológicos anteriores — não uma contagem específica para Portugal. Mas indicam que os episódios de poeiras do Sahara representam um risco sanitário real, especialmente para populações vulneráveis.
O impacto na produção de energia solar
A poeira reduz a radiação solar que chega ao solo e acumula-se nos painéis fotovoltaicos, diminuindo a produção de eletricidade. Uma previsão mais rigorosa destes episódios permitiria aos operadores energéticos antecipar quebras de produção e contribuir para a estabilidade da rede — especialmente relevante num país como Portugal, com crescente peso da energia solar.
A ligação às alterações climáticas
Os autores associam o agravamento recente das intrusões sobretudo a alterações na circulação atmosférica. O aumento de longo prazo registado nos gelos alpinos está relacionado com a crescente aridez e degradação dos solos no Norte de África.
“Ainda não é claro em que medida o aquecimento de origem humana contribuiu para esta evolução, embora a compreensão atual sugira que o fenómeno é, pelo menos, facilitado pelas emissões de gases com efeito de estufa”, afirma Kaspar Dällenbach, investigador do PSI e autor principal do estudo.
Como esta fonte de poluição não pode ser controlada pelos países atingidos, as principais medidas disponíveis são a previsão dos episódios e a emissão de alertas à população. A Agência Portuguesa do Ambiente avalia estas intrusões e disponibiliza informação e previsões através do portal QualAr.
Fontes
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