Em junho de 1845, Luís António Alves dos Santos estava condenado à morte. Tinha atirado um banco à cabeça de um juiz durante o seu julgamento, depois de perceber que as testemunhas mentiam e o magistrado já tinha decidido o resultado. A sentença foi forca.
Chegou-lhe então uma proposta improvável: tornar-se Executor de Alta Justiça — o carrasco real — em troca da vida. A função era a mais malvista de Portugal, um trabalho que ninguém queria e que socialmente isolava quem o exercia para sempre. A mulher de Luís convenceu-o a aceitar.
Foi assim que um homem condenado à morte se tornou, pelo resto da vida, o homem que aplicava a pena de morte aos outros.
Antes do cargo: uma vida de fugas e crimes
Luís nasceu em 1806 em Capeludos de Aguiar, Vila Pouca de Aguiar, numa família respeitada. Aos dez anos fugiu para Lisboa e sobreviveu a vender laranjas, voltando a casa meses depois. Aos dezasseis, em 1822, voltou a Lisboa e alistou-se na vida militar — onde se juntou a companhias pouco recomendáveis.
Participou num assalto no Campo Grande que resultou em homicídio, tornou-se fora-da-lei, refugiou-se em Trás-os-Montes, foi preso em Vila Pouca de Aguiar e respondeu por dezoito crimes que sempre negou — admitindo apenas duas mortes, que dizia terem sido em legítima defesa.
Foi julgado, absolvido das acusações principais, mas manteve-se preso por insubordinação. Conseguiu fugir, planeou ir para o Brasil, foi traído por um companheiro de cela e voltou para a prisão.
Foi nesse segundo julgamento que perdeu a calma e atirou o banco ao juiz. A sentença de morte que se seguiu foi a que, meses depois, seria comutada pela proposta de se tornar carrasco.
Antes de tudo isto, tinha sido também um militar válido — participou nas refregas da Asseiceira e de Almoster, fez parte da Legião Estrangeira, recebeu três condecorações. Era, ao mesmo tempo, um soldado com méritos reconhecidos e um homem com um historial criminal extenso. As duas coisas coexistiram na mesma pessoa sem que nenhuma cancelasse a outra.
O Negro
Ficou conhecido como “o Negro” pela forma como se vestia para as execuções: completamente de preto, com um capuz que lhe cobria a cabeça por inteiro, com apenas dois orifícios para ver o condenado e o que o rodeava. A imagem era deliberadamente assustadora — parte do peso simbólico do cargo era essa presença austera e anónima a caminhar em direcção a quem ia morrer.
Mas há um detalhe que muda completamente a história: ao que parece, Luís Alves nunca matou ninguém.
Segundo Camilo Castelo Branco, em Noites de Insónia, durante todo o tempo em que a pena de morte vigorou no seu serviço, houve apenas uma execução — em Tavira, em 1845.
E mesmo essa, segundo outras fontes, pode não ter sido executada por ele: tê-la-á pago ao seu ajudante para a realizar no seu lugar, algo que ninguém conseguiria detectar, dado que o capuz tornava qualquer carrasco indistinguível de outro.
O homem mais temido de Lisboa pode ter passado a vida inteira a representar um papel sem nunca ter feito aquilo que o papel exigia.
A vida depois da função
Em 1867, a pena de morte por crimes comuns foi abolida em Portugal. As execuções tornaram-se cada vez mais raras, e com elas o salário anual do carrasco — 49.200 réis — foi extinto. Mas, por uma ironia legal, o cargo em si não foi: Luís continuava obrigado a exercê-lo até à morte, simplesmente sem remuneração.
Sem salário e sem execuções, Luís tornou-se artífice e instalou-se no que ficaria conhecido como Pátio do Carrasco, em frente ao Largo do Limoeiro, junto à antiga cadeia.
A lenda local fala de um túnel subterrâneo que ligaria o pátio à prisão, usado para que o carrasco chegasse discretamente ao local das execuções — e fala também de gritos que ainda hoje se ouviriam ali, atribuídos ao tormento do próprio Luís pelas mortes que causou.
Se a história de Camilo estiver certa, e Luís nunca tiver executado ninguém, os gritos da lenda são de um homem atormentado por um crime que talvez nunca tenha cometido.
O fim
Luís Alves morreu a 18 de agosto de 1873, sozinho, pobre, esquecido pela família e pelos amigos, doente de epilepsia e asma. Antes disso, tinha-se refugiado em Vila Pouca de Aguiar, onde alugou um quarto junto ao caminho real para Cidadelha e trabalhou como sapateiro.
Esse quarto ficou conhecido como “o quarto do Negro” — e com o tempo cresceu, ganhou mais casas e moradores, tornando-se um bairro que existe ainda hoje, com o nome a esbater-se à medida que a memória do homem que lhe deu origem também se esbateu.
Lisboa tem o Pátio do Carrasco. Vila Pouca de Aguiar tem um bairro sem nome formal que começou com um quarto. E o homem que ligou os dois lugares pode ter sido, durante décadas, o executor mais temido do país sem nunca ter executado quase nada.






