No concelho de Vila Nova de Paiva, as Minas de Queiriga têm uma lagoa interior com uma cor azul intensa que parece pertencer a outro lugar — uma gruta criada não pela natureza, mas pelo trabalho humano de décadas de extração mineira.
Espaços a céu aberto deixam entrar luz solar que se reflete na água, acentuando o tom azul que tornou este lugar conhecido entre amantes de geocaching e exploração subterrânea.
A aldeia de Queiriga, com 575 habitantes, é conhecida como a “aldeia mais francesa de Portugal” — quadruplica de população no verão com a chegada de emigrantes. Mas é cada vez mais reconhecida por outro motivo: estas minas, e a sua beleza inesperada.
Como o desmonte criou as galerias
As galerias de Queiriga não são túneis convencionais nem espaços a céu aberto puros — são o resultado de desmonte de rocha, um método de extração que cria grandes espaços sustentados por colunas naturais.
Os mineiros, ao procurarem o filão mineral, esculpiram colunas que hoje funcionam como suporte estrutural e como elemento estético, separando as várias galerias e criando uma estrutura que se assemelha a clarabóias naturais.
A busca do filão levou também a um desnível acentuado dentro das minas — um detalhe que torna a exploração mais exigente, mas que contribui para a sensação de estar a descer por um espaço que não foi pensado para visitas, apenas para extração.
Existem várias lagoas no interior, mas a maior é também a mais bonita — especialmente perto do meio-dia, quando a luz natural entra diretamente na gruta e intensifica a cor da água ao máximo.
Os cuidados a ter
O acesso não é difícil, mas pode ser perigoso sem os devidos cuidados — há zonas onde é fácil escorregar, e a falta de estruturas de apoio complica o acesso a partes mais remotas das minas. Não existe vigilância, o que exige atenção redobrada a zonas de possível deslizamento de pedras.
O apogeu mineiro dos anos 40
A freguesia de Queiriga inclui as povoações de Queiriga, Lousadela, Minas de Lagares e Quinta das Valas, numa área de 35 quilómetros quadrados entre as margens do Paiva e do Vouga.
Na primeira metade do século XX, a atividade mineira foi intensa, atingindo o auge na década de 1940, quando cerca de 500 operários trabalhavam no local — um número considerável numa época em que mão de obra especializada era difícil de encontrar.
Extraía-se sobretudo cassiterite (óxido de estanho) e volfrâmio — minerais estratégicos que, durante a Segunda Guerra Mundial, tiveram procura elevada e explicam parcialmente a intensidade da exploração nesta década.
Os britânicos, belgas e franceses
Entre os operários contavam-se dezenas de técnicos estrangeiros, principalmente britânicos, mas também belgas e franceses especializados em engenharia de minas. A comunidade mineira era pequena mas internacionalmente diversa — um detalhe pouco comum para uma aldeia do interior português desta época.
No limite norte da povoação ainda existem as chamadas “casas de britânico” — recuperadas para habitação permanente, mas mantendo características arquitetónicas originais: caixa de ar acessível entre o solo e o rés-do-chão, piso único, duas águas na cobertura e alpendres generosos na fachada principal.
O centro comunitário da época, onde a comunidade mineira se reunia nos tempos livres, era o coração social desta aldeia temporariamente internacional.
O futuro turístico
As minas estão desativadas, mas estão a ser estudadas para exploração turística pela Câmara Municipal de Vila Nova de Paiva em conjunto com uma empresa concessionária — um projeto que poderia transformar este segredo de geocachers num destino mais estruturado e acessível.
As Minas de Queiriga são um caso raro: um espaço industrial abandonado que se tornou, sem intenção, num dos cenários mais bonitos da região.
A lagoa azul não foi desenhada para impressionar — é o resultado acidental de décadas de procura por volfrâmio, transformado pelo tempo e pela luz numa imagem que atrai cada vez mais visitantes.





