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Mata da Margaraça: a floresta sem pinheiros nem eucaliptos que resiste aos incêndios

A Mata da Margaraça, em Arganil, conteve os incêndios de agosto de 2025 graças à sua composição caducifólia. Reserva Biogenética com o maior núcleo de azereiros da Península Ibérica.

VxMag by VxMag
Jun 20, 2026
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Mata da Margaraça: a floresta que resiste ao fogo quando todas as outras ardem

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Enquanto vastas zonas do interior centro de Portugal ardiam em agosto de 2025, a Mata da Margaraça, em Arganil, conseguiu conter as chamas dentro do seu núcleo principal — um comportamento raro face ao padrão de destruição que se repete ano após ano noutras regiões do país.

Não foi sorte. É composição florestal e geografia a funcionar exatamente como deveriam.

Uma floresta sem resina

Ao contrário das extensas monoculturas de eucalipto ou pinheiro-bravo que dominam grande parte do território português — espécies altamente inflamáveis pela resina e pela folhagem seca — a Mata da Margaraça é uma floresta caducifólia rica em espécies autóctones: carvalhos, castanheiros, azereiros, azevinhos, loureiros.

São árvores com menos resina, copas mais densas e folhagem mais húmida — características que dificultam a ignição e abrandam a progressão das chamas quando o fogo chega.

A geografia reforça este efeito. Situada numa encosta orientada a norte-noroeste, entre 600 e 850 metros de altitude, com presença constante de linhas de água, a mata beneficia de um microclima fresco e húmido — exatamente o oposto das condições que tornam um incêndio incontrolável.

Um relicário de Laurissilva continental

A Mata da Margaraça tem referências documentais desde o século XIII e é hoje uma das manchas de vegetação original mais bem conservadas do Centro de Portugal. Está classificada como Reserva Biogenética pelo Conselho da Europa e integra a Rede Natura 2000.

Os especialistas consideram-na um relicário da floresta Laurissilva continental — um tipo de vegetação que remonta a períodos mais húmidos e temperados da história climática europeia, hoje rara fora de contextos muito específicos como a Madeira.

O maior núcleo de azereiros da Península

O valor ecológico é difícil de sobrestimar. Aqui foi identificado o maior núcleo de azereiros (Prunus lusitanica) de toda a Península Ibérica. Entre 2018 e 2019, uma tese de doutoramento em Biologia da Conservação registou 272 espécies de cogumelos na mata — 74 das quais nunca tinham sido observadas em território português.

A fauna inclui aves como o açor e o pombo-torcaz, mamíferos como a raposa, e anfíbios endémicos como o tritão-de-ventre-laranja. É um conjunto de dados que transforma a Margaraça num laboratório natural a céu aberto — um lugar onde a biodiversidade ainda está a ser descoberta, não apenas catalogada.

O património humano

Além da biodiversidade, a mata guarda memória humana: acolheu rendeiros até ao século XIX, e vestígios dessa atividade agrícola sobrevivem em moinhos, fornos e casas de lavoura.

Hoje, trilhos pedestres de acesso livre permitem percorrer a mata, contemplando simultaneamente a vegetação rara e a memória de um modo de vida quase desaparecido.

Cicatrizes que ainda existem

A Mata da Margaraça não é imune ao fogo — o grande incêndio de 2017 deixou cicatrizes ainda visíveis.

Mas o seu comportamento em 2025, conseguindo conter o fogo onde outras florestas ardiam sem resistência, sugere algo importante: representa um modelo de paisagem mais diverso e resiliente, menos sujeito ao ciclo vicioso de plantação intensiva seguida de abandono que tantas outras zonas do interior português conhecem.

Num país onde os verões se prolongam e os incêndios se tornam mais destrutivos a cada década, a Mata da Margaraça funciona quase como argumento físico: floresta nativa, densa e húmida resiste de forma diferente à floresta de monocultura inflamável. Talvez seja altura de ouvir o que esta floresta silenciosa está, de facto, a demonstrar.

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