Em 1543, um navio com portugueses a bordo chegou à ilha japonesa de Tanegashima por acidente — desviado da rota pela força do vento, segundo os relatos. A bordo estavam comerciantes que não tinham planeado estar ali, e uma ilha que nunca tinha visto europeus.
O que se seguiu foi um século de trocas intensas — língua, fé, armas, gastronomia, arte — que terminou abruptamente em 1639, quando o Japão expulsou os portugueses e fechou as fronteiras. Mas as marcas tinham ficado, e algumas ainda existem hoje de formas que a maioria das pessoas não associa imediatamente a Portugal.
A palavra que os japoneses usam para pão
Pan. É assim que se diz pão em japonês — a palavra latina panis, chegada ao Japão através do português no século XVI, e nunca substituída por um equivalente nativo.
Da mesma forma, tempura — o prato de fritos que hoje é um dos símbolos da cozinha japonesa — vem provavelmente de tempero ou das Quatro Têmporas, os períodos de jejum cristão em que os jesuítas comiam peixe e legumes fritos. Botan é botão. Bateren é padre.
Do outro lado, o japonês também deu ao português: biombo, catana, tampão, e outras palavras que entraram no idioma através deste encontro.
As armas que mudaram o equilíbrio de poder
Quando os portugueses chegaram, trouxeram algo que transformou imediatamente a política interna japonesa: armas de fogo. Os teppo — arcabuzes na terminologia portuguesa da época — eram desconhecidos no arquipélago e foram adoptados com uma rapidez que surpreende, dado o isolamento tradicional japonês em relação a influências externas.
O impacto foi directo e mensurável: Oda Nobunaga e Toyotomi Hideyoshi, os dois senhores feudais que unificaram o Japão no final do século XVI, usaram a tecnologia das armas de fogo europeias para derrotar os seus rivais e consolidar o poder central. É difícil perceber como teria corrido essa unificação sem o acidente de navegação de 1543.
São Francisco Xavier e os cristãos secretos
Em 1549, o jesuíta Francisco Xavier chegou ao Japão com a intenção de converter os japoneses ao catolicismo. Ficou dois anos. Durante esse tempo, e nos anos que se seguiram com os seus sucessores, dezenas de milhares de japoneses converteram-se, sobretudo nas regiões de Kyushu e Nagasaki.
Alguns daimyos — senhores feudais — viram na nova religião uma aliança estratégica contra o poder central. Outros viram uma ameaça. A perseguição cresceu progressivamente, culminando na proibição do cristianismo em 1614.
Mas a fé não desapareceu completamente. Surgiram os kakure kirishitan — cristãos ocultos —, comunidades que mantiveram a religião em segredo durante gerações, disfarçando as práticas cristãs em rituais que pareciam budistas ou xintoístas de fora.
Só no século XIX, quando os missionários europeus voltaram a ter acesso ao Japão, perceberam que estas comunidades tinham existido durante mais de duzentos anos de clandestinidade, preservando orações e rituais em formas que mal eram reconhecíveis como cristãos, mas que eram inconfundivelmente contínuos.
Kastera e konpeito
Na gastronomia, a influência portuguesa é talvez a que se sente de forma mais imediata. O pão-de-ló tornou-se kastera — uma versão japonesa do bolo que ainda hoje é uma especialidade de Nagasaki, a cidade que foi o centro do comércio português no Japão.
Os confeitos de açúcar tornaram-se os coloridos konpeito, cuja forma estrelada corresponde exatamente à dos confetos portugueses da época.
A fritura em óleo era rara na cozinha japonesa antes dos portugueses chegarem. Hoje, a tempura é um dos pilares da gastronomia do país.
Os biombos que retravam os estrangeiros do sul
No campo das artes, os jesuítas ensinaram pintura a óleo e introduziram o órgão, o canto gregoriano e instrumentos europeus de corda e sopro. Fábulas de Esopo foram traduzidas para japonês.
E os artesãos japoneses desenvolveram um género artístico específico para representar os estrangeiros que tinham chegado — os namban byobu, biombos decorados com cenas da vida europeia, onde aparecem os portugueses de calças largas, chapéus altos e rosários ao pescoço.
Namban significa “bárbaros do sul” — o nome que os japoneses deram aos europeus que chegavam por essa direcção. É um termo que mistura fascínio e distância, curiosidade e desconfiança.
Os biombos que representam esses bárbaros são hoje peças de museu em Kyoto e Tóquio, e mostram como os japoneses do século XVI observavam os portugueses com uma atenção minuciosa que a maioria dos encontros coloniais da época não produzia nos dois sentidos.
O fim abrupto
Em 1639, o xogunato Tokugawa decretou a expulsão dos portugueses e o fechamento do Japão ao exterior. Só os holandeses, considerados suficientemente pragmáticos e sem ambições missionárias visíveis, ficaram autorizados a manter uma presença limitada numa ilha artificial no porto de Nagasaki — Dejima.
Os portugueses saíram. As palavras ficaram. O pão-de-ló ficou. As comunidades cristãs secretas ficaram. E os biombos ficaram, com as imagens dos bárbaros do sul que chegaram por acidente numa ilha de Tanegashima e mudaram o Japão de formas que nenhum dos dois lados tinha planeado.







