Os mapas antigos do Algarve mostram, perto do Cabo de Santa Maria, uma ilha chamada Ilha dos Cães. A partir do século XIX, deixa de aparecer. Não há um momento de destruição registado, não há um evento que explique o desaparecimento — simplesmente, a partir de certa altura, as cartas pararam de a mencionar.
Hoje não se sabe ao certo onde ficava. A teoria mais aceite é que correspondia à antiga ilha de Santa Maria, uma das ilhas barreira que protegem a Ria Formosa. Outras fontes apontam para a Armona.
Nenhuma é definitiva — porque a geografia desta zona da costa algarvia tem uma característica que torna qualquer certeza arriscada: não para de se mover.
Uma costa que se redesenha sozinha
As ilhas barreira da Ria Formosa são feitas de bancos de areia que as marés e os ventos moldam continuamente. As barras que separam as ilhas deslocam-se lentamente de oeste para leste, ano após ano, século após século.
É por isso que os fortins que em tempos protegiam este litoral desapareceram sem deixar ruínas visíveis — não foram demolidos, foram engolidos pela areia que se reorganizou à volta deles.
E depois houve o terramoto de 1755. O tsunami que se seguiu devastou esta zona da costa com uma violência que mudou permanentemente a configuração das ilhas.
Para uma área já instável por natureza, foi o tipo de evento que pode ter apagado de vez características geográficas que existiam até então — incluindo, possivelmente, a forma e a posição exactas daquilo que se chamava Ilha dos Cães.
A ilha dos leprosos
As primeiras referências documentadas à presença humana na ilha datam de 1522, e o contexto não é pitoresco: a ilha — também chamada Ilha dos Leprosos — era ponto de paragem obrigatório para viajantes vindos de Arzila suspeitos de transportar peste bubónica.
Era, na prática, uma estação de quarentena natural, isolada o suficiente para conter uma doença que aterrorizava a Europa medieval e moderna.
A vida ali era dura. Isolamento, condições naturais hostis, e o risco constante de incursões de piratas que aproveitavam estas zonas remotas da costa para se esconder e operar.
De quarentena a comunidade piscatória
Por volta de meados do século XIX, a ilha já tinha outra função. Pescadores começaram a construir cabanas e armações de pesca, primeiro para uso temporário durante a época da faina, depois como habitação permanente, levando consigo as famílias.
Destes núcleos nasceram comunidades que ainda existem hoje — a mais expressiva é Culatra, que continua a ser uma povoação piscatória nas ilhas barreira da Ria Formosa.
Os cães que talvez tenham dado nome à ilha
A explicação mais provável para o nome está nos cães de água — a raça que durante séculos foi parceira indispensável dos pescadores algarvios. Estes cães encaminhavam cardumes para as redes, vigiavam o trabalho, e alguns mergulhavam para trazer peixe intacto na boca, sendo “pagos” por esse serviço com parte da pesca. Acompanhavam os pescadores nas viagens pelo Mediterrâneo, guardavam pertences a bordo, e até levavam mensagens entre embarcações.
São nadadores excepcionais, extraordinariamente inteligentes, resistentes à fadiga de uma forma que impressionou até a realeza: o rei D. Carlos tinha dois cães de água a bordo do iate D. Amélia, onde participavam nas campanhas oceanográficas que o rei tanto apreciava.
Não há confirmação de que tenham sido estes cães a dar nome à ilha — mas a coincidência entre uma ilha onde pescadores e cães de água trabalhavam lado a lado, e um nome que literalmente significa “ilha dos cães”, é difícil de ignorar.
O que ficou
A ilha desapareceu dos mapas. Os cães de água quase desapareceram também — nos anos 1970 e 1980, eram considerados a raça mais rara do mundo, à beira da extinção.
Tiveram, ao contrário da ilha, uma recuperação: hoje são animais de companhia populares internacionalmente, com o prestígio que antes tinham apenas nas comunidades piscatórias que dependiam deles.
Resta a pergunta sem resposta definitiva: onde ficava exactamente a Ilha dos Cães? A costa que a engoliu — ou simplesmente reconfigurou — continua a mover-se. Talvez a resposta esteja debaixo de areia que ainda está, neste preciso momento, a deslocar-se de oeste para leste.







