Em 1534, Portugal construiu um navio com 366 bocas de fogo de bronze — um número tão impressionante para a época que o navio ficou conhecido pelo nome que esse poder de fogo lhe deu: Botafogo. Oficialmente chamava-se São João Batista. Mas ninguém o tratava assim.
Era o navio de guerra mais poderoso do mundo no seu tempo. E o seu nome viajaria, séculos depois, até um bairro do Rio de Janeiro que ainda hoje se chama Botafogo — sem que a maioria dos seus habitantes saiba porquê.
O galeão que quebrou as correntes de Tunes
O Botafogo era um galeão de cerca de mil toneladas, com quatro mastros e armamento que o tornava praticamente sem rival nos mares do seu tempo.
Em 1535, participou na conquista de Tunes, uma campanha em que o imperador Carlos V pediu apoio naval a Portugal — e requisitou especificamente este navio, sinal claro de como a sua reputação já se tinha espalhado pela Europa.
Na batalha, comandado pelo Infante D. Luís — irmão de D. João III e cunhado do próprio Carlos V —, o Botafogo liderou o ataque ao porto de La Goleta. Foi o seu esporão que quebrou as correntes que protegiam o porto, abrindo caminho para que a armada cristã entrasse na cidade. Um único navio, num único momento, decidiu o acesso de toda uma frota.
O artilheiro que deu nome a um bairro do Rio
O responsável pela artilharia do Botafogo era João Pereira de Sousa, nobre natural de Elvas. A fama do navio colou-se de tal forma a este homem que “Botafogo” se tornou parte do seu próprio apelido — e passou, depois, aos seus descendentes.
João Pereira de Sousa estabeleceu-se mais tarde no Brasil, onde recebeu da Coroa Portuguesa terras junto à Baía de Guanabara. Essa área ficou conhecida pelo mesmo nome que ele carregava: Botafogo.
Durante muito tempo, foi apenas uma zona rural. Tudo mudou quando a Família Real portuguesa chegou ao Brasil em 1808, fugindo da invasão francesa. A nobreza que acompanhou a corte procurou as zonas mais agradáveis do Rio de Janeiro para construir residências, e Botafogo tornou-se um dos bairros preferidos.
É hoje um dos bairros mais conhecidos e valorizados da zona sul carioca — com um nome que remonta directamente a um galeão português do século XVI e ao artilheiro que o serviu.
A lenda chinesa
Há ainda outra camada de mitologia ligada a este navio, mais distante geograficamente. Perto de Macau, existe uma velha lenda local sobre o Botafogo regressar do fundo do mar para vingar comerciantes portugueses assassinados.
A lenda terá nascido depois de os portugueses derrotarem os piratas Singh — inimigos declarados do imperador chinês — sendo recompensados com a autorização para ocupar Macau. O Botafogo, pela sua reputação de poder absoluto, tornou-se figura simbólica dessa vitória, mesmo em culturas distantes da portuguesa.
Os outros galeões – e o fim na Invencível Armada
O Botafogo não estava sozinho na sua categoria. Portugal, com um império vastíssimo a defender, construiu uma frota considerável de galeões ao longo dos séculos XVI a XVIII.
O São Paulo, construído em 1589, pesava 500 toneladas e tinha quatro navios “irmãos” — São Filipe, São Bartolomeu, São Pantaleão e São Pedro — todos construídos no mesmo ano. Fez apenas uma viagem à Índia antes de naufragar no regresso, provavelmente por excesso de carga.
O Santiago, de 1602, integrava a Carreira das Índias e podia transportar trezentas pessoas. Numa viagem de regresso, parou na Ilha de Santa Helena para se abastecer — prática habitual — e foi surpreendido e capturado por navios holandeses.
O São Martinho, de 1580, foi escolhido para comandar a Invencível Armada espanhola. Sobreviveu à batalha, gravemente danificado, e conseguiu liderar de volta os navios que restaram — mas nunca mais voltou a navegar depois disso.
A ironia mais amarga da história destes galeões é que muitos dos melhores navios portugueses foram destruídos ao serviço de Espanha, durante o domínio filipino, quando a Invencível Armada — composta em boa parte por navios portugueses — foi derrotada pela Inglaterra.
A perda destes navios comprometeu seriamente a capacidade do Império Português de se defender depois, deixando cidades e rotas comerciais expostas a ataques holandeses nas décadas seguintes.
Portugal construiu 21 novos galeões para colmatar a falha. Alguns serviram durante décadas. Outros duraram menos de um ano, capturados ou naufragados antes de cumprirem qualquer missão relevante.
O Botafogo, construído antes de tudo isto, continua a ser o nome que sobreviveu com mais força — gravado num bairro do Rio de Janeiro que a maioria das pessoas que ali vive nunca associou a um galeão de 366 canhões construído em Portugal há quase cinco séculos.







