A Estação de Aveiro tem a fachada coberta de painéis de azulejos policromos — amarelos e azuis — do chão ao telhado, tanto na fachada principal como na parede virada para o cais.
São oito painéis no total, da autoria dos artistas aveirenses Francisco Pereira e Licínio Pinto, ligados à Fábrica Fonte Nova, com paisagens da região, pescadores, peixeiras, embarcações tradicionais, monumentos e cenas do quotidiano setecentista de Aveiro e arredores.
Os painéis incluem também monumentos de outras regiões — o Castelo de Santa Maria da Feira, os palheiros da Costa Nova, o Mosteiro de Alcobaça e o Castelo de Almourol — numa ode à identidade cultural do país que ia além do estritamente local.
A remodelação de 1916 e a polémica política
A estação original era um edifício pequeno e simples. Com o crescimento do tráfego ferroviário no início do século XX, tornou-se obsoleto, e entre 1915 e 1916 foi alargado e modificado. Foi precisamente em 1916 que recebeu os painéis de azulejo que hoje se veem.
A remodelação não foi isenta de controvérsia. Pretendia-se retratar, lado a lado num painel, José Estevão e Manuel Firmino — dois políticos opositores.
Como Firmino tinha sido Presidente da Câmara e a contestação era considerável, optou-se por retratar apenas Manuel Firmino e D. José de Salamanca y Mayol, que detinha a concessão das obras na Linha do Norte. Um retrato desapareceu do plano; a polémica ficou na história da estação.
Um projeto governamental de grande escala
A Estação de Aveiro integra um conjunto de estações ferroviárias decoradas com azulejos que retratam o quotidiano e a identidade local de cada região — um projeto de larga escala do governo da época que incluiu a Estação de São Bento, a do Pinhão, a de Sines, a de Vilar Formoso e a de Marvão.
Cada estação tinha as suas especificidades, mas partilhavam a mesma lógica: transformar a fachada num documento visual das tradições, paisagens e figuras do lugar onde se inseria.
A degradação e a recuperação recente
O destino destas estações foi variável. Algumas foram bem conservadas ao longo do tempo — São Bento e o Pinhão são os exemplos mais conhecidos. A Estação de Aveiro seguiu caminho diferente: a fachada e os painéis foram-se degradando sem intervenção durante anos.
Obras de remodelação recentes devolveram aos azulejos o esplendor original — recuperando aquilo que é, provavelmente, o mais importante conjunto de azulejaria exterior de Aveiro.
O roteiro das estações azulejadas
Para quem quer explorar este tipo de azulejaria em contexto ferroviário, a Linha do Oeste tem uma concentração notável de estações decoradas: Leiria, Bombarral, Óbidos, Caldas da Rainha, Valado dos Frades, Mafra e Outeiro são paragens que constroem, juntas, um roteiro de azulejo exterior que poucos países conseguem oferecer.
No Porto, a Estação de São Bento inverte o modelo — os azulejos estão no interior, não na fachada, com painéis que representam cenas históricas de Portugal.
É um cartão postal da cidade e um monumento de visita obrigatória para quem quer perceber a extensão do azulejo na identidade portuguesa. A Capela das Almas, a Igreja do Carmo, a Sé e a Igreja de Santo Ildefonso completam o roteiro azulejar da cidade.
A Estação de Aveiro é uma estação em funcionamento que é também um monumento — oito painéis que documentam a vida setecentista da região, com uma polémica política embutida na história da sua construção e uma recuperação recente que devolveu a cor original ao conjunto.
É o tipo de lugar onde se passa todos os dias sem reparar, e que exige parar para ver.






