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David Melgueiro: o navegador português esquecido que desbravou o Ártico

David Melgueiro pode ter atravessado o Ártico em 1660, 200 anos antes de Nordenskiöld. A fonte é um espião francês. Os arquivos holandeses talvez guardem a prova.

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Jul 9, 2026
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David Melgueiro navegador

David Melgueiro

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A Passagem do Nordeste — a rota marítima que liga o Pacífico ao Atlântico pelo Ártico, contornando a costa norte da Rússia — foi oficialmente atravessada pela primeira vez em 1878-1879, pelo sueco-finlandês Erik Nordenskiöld. É o que diz a história oficial.

Mas existe uma versão alternativa, sustentada por fontes indirectas e enredada em silêncios que podem ser estratégicos ou simplesmente lacunas de arquivo: que um navegador português chamado David Melgueiro fez o mesmo percurso entre 1660 e 1662 — mais de dois séculos antes — ao serviço da coroa holandesa, a bordo de uma nau chamada Pai Eterno.

Se for verdade, é um dos feitos mais extraordinários da história da navegação. Se não for, é uma das lendas mais bem construídas que o mar português produziu.

O que se sabe – e de onde vem

A principal fonte sobre a expedição de Melgueiro é o testemunho de um espião francês chamado La Madelène, que terá ouvido a história de um marinheiro que navegou com o português. É, por qualquer critério, uma cadeia de transmissão frágil: uma história contada por alguém que a ouviu de outro alguém que esteve lá.

O que La Madelène registou é o seguinte: Melgueiro zarpou de Tanegashima, no Japão, a 14 de março de 1660, transportando passageiros espanhóis e holandeses e riquezas orientais. Em vez de seguir as rotas habituais — pelo Índico e contornando África, ou pelo Pacífico em direcção à América — escolheu o norte.

Navegou pelo estreito de Anian, que é o actual estreito de Bering, entrou no Oceano Glacial Ártico, chegou a latitudes de 84 graus norte, passou entre Spitsbergen e a Gronelândia, desceu ao longo da Europa, parou na Holanda, e embarcou depois para o Porto.

A viagem durou dois anos.

A explicação para a possibilidade física desta rota seria um ano excepcionalmente quente que teria aberto temporariamente as águas normalmente geladas — uma janela de oportunidade que outros navegadores da mesma época, como Willem Barents e Vitus Bering, não encontraram e pagaram com a vida.

O silêncio que talvez seja estratégico

A questão óbvia é: se isto aconteceu, porque é que ninguém sabe?

A resposta mais plausível é o segredo comercial. Os holandeses, que controlavam algumas das rotas marítimas mais lucrativas do século XVII, tinham interesse óbvio em não publicitar uma passagem alternativa que podia ser usada por concorrentes.

Uma rota ártica entre o Japão e a Europa cortava completamente as ameaças que existiam nas rotas do sul — piratas, navios inimigos, o controlo português e espanhol do Índico e do Atlântico sul.

Acredita-se que a chancelaria holandesa e a Biblioteca de Paris guardem documentos que mencionam a expedição. Se existem, não foram tornados públicos de forma conclusiva.

Os outros que tentaram e não chegaram

David Melgueiro não foi o primeiro a tentar esta rota. Outro português, João Martins, tentara a mesma travessia em 1585, transportando D. Lourenço Maldonado, mas foi obrigado a regressar a Lisboa por uma tempestade. Barents morreu nas suas tentativas. Bering também.

A rota ártica era o tipo de desafio que a época da exploração marítima tratava como limite absoluto — não apenas difícil, mas provavelmente impossível.

O que tornaria Melgueiro excepcional, se o relato de La Madelène for fiel, não é apenas ter conseguido onde outros falharam. É ter conseguido numa época em que as tecnologias de navegação do século XVII tornavam a empresa ainda mais improvável do que nos séculos seguintes.

O que ficou

O nome de Melgueiro está numa rua de Lisboa. Durante o Estado Novo, o maior arrastão bacalhoeiro português lançado ao mar em 1951 foi baptizado com o seu nome — e protagonizou, por ironia ou por símbolo, a maior captura de bacalhau registada na época. No século XXI, surgiu uma associação dedicada a honrar a sua memória e a alertar para os desafios ambientais dos oceanos árticos.

A história de David Melgueiro continua sem resolução. Não há prova documental directa da viagem, não há diário de bordo, não há carta náutica traçada pela sua mão. Há um relato de segunda mão registado por um espião francês, e há o silêncio de arquivos que podem ou não guardar o que falta.

O Ártico que Melgueiro terá atravessado em 1660 está hoje a derreter mais depressa do que em qualquer momento dos últimos milénios. A Passagem do Nordeste, que durante séculos era navegável apenas em janelas excepcionais, começa a abrir-se de forma regular.

A rota que pode ter sido o segredo comercial mais bem guardado do século XVII está a tornar-se, pela razão errada, cada vez mais acessível.

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