A 846 metros de altitude, no município do Sabugal, Alfaiates é uma vila fronteiriça com 700 habitantes que passou pelas mãos de celtas, romanos, árabes, leoneses e portugueses antes de se tornar definitivamente parte do reino de Portugal — e onde cada uma dessas presenças deixou vestígios que ainda hoje são visíveis.
O nome é provavelmente de origem árabe, derivado de Al-haet, que significa parede ou cerca — uma etimologia que condiz com a função que a localidade sempre teve: posto de defesa numa fronteira contestada.
De Al-Haet ao Tratado de Alcanizes
O território foi tomado pelos romanos em 61 a.C. e tornou-se um dos principais pontos de comunicação da região. Em 716, os árabes ocuparam Alfaiates, que se tornou no principal centro de administração do Ribacôa. Integrou depois o reino leonês, recebendo foral do rei de Leão entre 1209 e 1226.
Em 1296, durante o reinado de D. Dinis, foram conquistadas várias terras do Ribacôa. As conquistas foram reconhecidas no ano seguinte com a assinatura do Tratado de Alcanizes — o tratado que fixou a fronteira entre Portugal e Castela, que permanece essencialmente a mesma até hoje.
D. Dinis concedeu à vila um segundo foral para fixar as populações, incluindo a realização de uma feira mensal que ainda hoje acontece.
Brás Garcia de Mascarenhas e as Guerras da Restauração
Com a fronteira a perder importância estratégica, o concelho de Alfaiates foi extinto entre 1835 e 1855, passando a integrar o de Sabugal. Mas antes disso, as Guerras da Restauração trouxeram destruição à vila.
O capitão Brás Garcia de Mascarenhas assumiu papel determinante na defesa da região e nas obras de remodelação da praça-forte — a configuração atual da localidade resulta em grande parte dessa intervenção do século XVII. Em 1811, durante as Invasões Francesas, o castelo voltou a ter papel relevante na defesa da fronteira.
O busto de Brás Garcia de Mascarenhas está no largo fronteiro à entrada do castelo — um reconhecimento tardio mas permanente do papel que teve na sobrevivência da vila.
O castelo e o que resta das muralhas
O castelo ainda subsiste, com duas torres e dupla cintura de muralhas quadradas. Das muralhas que em tempos circundavam completamente o promontório plano onde a vila assenta, pouco restou — as pedras foram reutilizadas na construção ao longo dos séculos.
A Rua Direita e a Igreja de Sacaparte
A Rua Direita atravessa a vila passando pelo Solar dos Camejos e pelas traseiras da Igreja Matriz, até à Praça Rainha Santa Isabel, onde se encontram a Igreja da Misericórdia, o Pelourinho e a antiga Casa da Câmara.
Perto de Alfaiates, a Igreja de Sacaparte foi em tempos um importante centro de peregrinação regional. O interior tem talha dourada e um fresco significativo na parede por trás do altar-mor. As ruínas de um antigo convento ficam junto ao recinto.
Alfaiates passou por celtas, romanos, árabes, leoneses e portugueses, foi praça militar fronteiriça, perdeu o concelho, foi reconstruída por um capitão do século XVII, e ainda tem o castelo de pé e a feira mensal que D. Dinis instituiu.
É uma vila pequena com uma história que a maioria das cidades não consegue igualar em densidade.







