Durante quase dois séculos, os corsários do norte de África caçaram pescadores portugueses ao largo da costa da Ericeira. Não era pirataria aleatória — era um negócio.
Os homens capturados eram vendidos como escravos em Argel ou noutras cidades do norte de África, e a única forma de os recuperar era pagar o resgate. A aldeia organizava peditórios. A Igreja enviava ordens religiosas para negociar. E enquanto o dinheiro não chegasse, os pescadores ficavam.
Treze anos. Catorze anos. Uma geração inteira longe.
Como Argel aprendeu a chegar até à Ericeira
Durante séculos, os piratas berberescos tinham galés e barcos a remo — o que os limitava à costa e às aldeias à beira-mar. Em 1606, um pirata holandês chamado Simon Danser instalou-se em Argel e ensinou os argelinos a construir navios oceânicos de alto-mar.
A partir daí, o perigo deixou de ser apenas costeiro e passou a ser uma ameaça em qualquer ponto do Atlântico. Em 1616, chegaram à ilha de Santa Maria, nos Açores. No ano seguinte, a Porto Santo.
Foi neste contexto que aconteceu a batalha de 1621. Em outubro desse ano, ao largo da Ericeira, uma frota de dezassete naus e cinco mil homens cercou a nau portuguesa Nossa Senhora da Conceição. Combateu-se durante três dias. A nau ardeu e afundou-se. Os sobreviventes foram levados para Argel.
Um deles, João Carvalho Mascarenhas, sobreviveu o suficiente para escrever sobre o que aconteceu — em 1627 publicou em Lisboa a memória da batalha e dos que ficaram cativos. Essa tarde de combate teve canhões, um nome e um relato impresso.
O que veio depois não teve nada disso.
A aritmética do resgate
Comprar um homem de volta era um ofício organizado. Cabia sobretudo aos trinitários — a ordem religiosa chegada a Lisboa em 1207, especializada em organizar resgates de cativos cristãos no norte de África. O processo era lento: juntava-se o dinheiro, enviava-se um religioso a negociar, e trazia-se de volta quem houvesse verba para pagar.
Em 1754, um desses resgates libertou 228 cativos portugueses de Argel. A maioria era gente do mar — cinquenta e seis pescadores, quarenta e cinco marinheiros. Entre eles ia um homem da Ericeira: António Ferreira, quarenta e dois anos de idade, catorze deles passados como escravo. É o único cativo da vila que a documentação acessível nos deixa nomear.
Em 1778, outro resgate trouxe onze homens da Ericeira — um capitão e dez pescadores, aparentemente todos do mesmo barco, todos com o mesmo tempo de cativeiro. Treze anos. Um barco inteiro que saiu para o mar e não voltou, e que só uma geração depois alguém conseguiu resgatar.
Não eram casos isolados. Em 1753, imprimiu-se em Lisboa uma carta vinda de Tunes: um marinheiro da Ericeira, cativo do outro lado do mar, contava o terramoto que tinha abalado aquela cidade.
O nome não está na carta — o relato é anónimo. Mas está ali, em letra de forma, a voz de um homem da vila a escrever de uma cidade onde estava preso.
Os últimos anos do corso
Entre 1778 e 1810, mais de seiscentos portugueses foram capturados pelo corso de Argel. Nos anos finais, entre 1799 e 1810, os argelinos intensificaram os ataques à navegação portuguesa de guerra, de comércio e de pesca.
Chegaram a entrar pelo estuário do Tejo adentro, a atacar pescadores da Trafaria e da Caparica, à porta de Lisboa. Entre os barcos apresados continuavam a contar-se embarcações da Ericeira.
Na paróquia da Ericeira, os livros de registo guardavam entradas de peditórios — as colectas organizadas para juntar o dinheiro do resgate dos pescadores capturados. É a contabilidade silenciosa de duzentos anos de perda: quanto custou cada homem, quem contribuiu, quanto faltava.
A trégua chegou a 6 de julho de 1810. A paz foi assinada a 14 de junho de 1813.
Tarde demais para os catorze anos de António Ferreira. Tarde demais para os onze homens do barco que ficou treze anos em Argel. Tarde demais para os nomes que a paróquia guardou e que já não conseguimos ler.
O mar da Ericeira ainda havia de afogar os seus pescadores, durante muitos anos. Mas já não os vendia.
Fonte: Portugal Esquecido






