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Quando a Coca-Cola tentou derrubar Salazar

A Coca-Cola foi proibida em Portugal em 1927 e só entrou legalmente em 1977. Pelo caminho, lendas envolvem Salazar, a CIA e Humberto Delgado.

VxMag by VxMag
Jun 15, 2026
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A Coca-Cola só entrou legalmente em Portugal em 1977. Antes disso, há quase cinco décadas de história feita de proibições, tentativas falhadas, e um conjunto de lendas urbanas que se tornaram tão repetidas que muita gente as trata como factos — incluindo a ideia de que Fernando Pessoa escreveu o slogan “primeiro estranha-se, depois entranha-se”.

Vale a pena separar o que está documentado do que é, na melhor das hipóteses, boa história.

A proibição de 1927

A primeira chegada da Coca-Cola a Portugal terminou em 1927, quando Ricardo Jorge — responsável pela saúde pública na época — proibiu a sua venda. A decisão tinha uma justificação concreta: até 1929, a Coca-Cola mantinha cocaína na sua fórmula.

A bebida tinha sido criada, originalmente, como resposta a um vinho italiano chamado Marianni, que também continha cocaína — era, em certo sentido, parte de uma geração de produtos que hoje pareceriam impensáveis num supermercado.

A proibição portuguesa de 1927 foi, vista em retrospectiva, uma decisão de saúde pública razoavelmente avançada para a época.

Quanto ao slogan atribuído a Pessoa — “primeiro estranha-se, depois entranha-se” —, a única fonte é um artigo de 1982 escrito pelo filho de um comerciante que tinha importado a bebida antes da proibição.

Uma fonte, várias décadas depois dos factos, sem documentação adicional. Pode ser verdade. Pode ser uma boa história que ganhou vida própria por ser demasiado bem composta para não ser repetida.

O concessionário, o suborno, e a escolta até ao aeroporto

A segunda tentativa, já durante o Estado Novo, gerou outra lenda popular: a de que um concessionário da Coca-Cola na Península Ibérica — descrito como russo de ascendência americana, radicado em França — tentou convencer Salazar a permitir a comercialização do produto, recorrendo inclusive a suborno. Segundo a história, Salazar mandou escoltá-lo imediatamente até ao aeroporto.

Não há provas de que isto tenha acontecido exactamente assim. Mas a história sobreviveu, provavelmente porque encaixa perfeitamente na imagem que se tinha de Salazar: incorruptível, autoritário, hostil a influências externas que não controlasse.

A CIA, Coca-Cola, e Humberto Delgado

A terceira lenda é a mais ambiciosa: a de que a Coca-Cola financiou a campanha presidencial do General Humberto Delgado em 1958, com envolvimento da CIA. Não há origem clara para esta teoria, nem prova que a sustente.

O que provavelmente aconteceu é que a campanha de Delgado foi tão inesperada e tão disruptiva que gerou explicações conspirativas à medida da sua dimensão — como se um fenómeno daquela escala precisasse de uma força externa poderosa para ser explicado.

O que realmente aconteceu com Delgado em 1958

E aqui a história deixa de precisar de lendas, porque os factos são suficientemente extraordinários por si.

Em 1958, era previsível que Humberto Delgado seguisse o percurso habitual dos candidatos da oposição: fazer campanha dentro dos limites impostos pelo regime, e desistir pouco antes das eleições — como tinha acontecido com Norton de Matos em 1949 e Quintão Meireles em 1951.

A 10 de maio de 1958, numa conferência de imprensa no café Chave d’Ouro, um jornalista da France-Presse perguntou-lhe o que faria a Salazar se fosse eleito Presidente. Delgado respondeu sem hesitar: “Obviamente, demito-o.”

Numa ditadura onde criticar Salazar directamente era impensável, esta frase foi um choque. Os apoiantes do regime acharam que tinha acabado de destruir a própria candidatura. Aconteceu o contrário: a frase tornou-se o catalisador de um entusiasmo popular sem precedentes em qualquer eleição anterior do Estado Novo.

Delgado percorreu o país, foi a locais onde nenhum candidato presidencial costumava aparecer, e foi recebido por multidões — seguidas, frequentemente, de confrontos com a polícia.

O PCP, inicialmente desconfiado, chegou a suspeitar que Delgado fosse um agente em conluio com Salazar e com os serviços secretos britânicos e americanos, montado para dividir a oposição.

Mas Delgado acabou por construir uma base de apoio improvável: comunistas, antigos nacional-sindicalistas, republicanos, monárquicos — gente que normalmente não partilhava palco nem propósito.

O que ficou

A Coca-Cola entrou legalmente em Portugal apenas em 1977 — embora já fosse consumida nas colónias há mais tempo, com uma fábrica em Angola que engarrafava o concentrado vindo dos Estados Unidos.

A entrada em Portugal continental gerou desconfiança do lado comunista, que viu nela um símbolo do imperialismo americano, mas o produto entrou de qualquer forma, aproveitando a maior abertura do país ao exterior depois do 25 de Abril.

Quanto a Humberto Delgado, a história real — a frase no Chave d’Ouro, a campanha que mobilizou multidões, a coligação improvável de apoiantes — não precisa de Coca-Cola nem de CIA para ser extraordinária.

É um dos episódios mais notáveis da resistência ao Estado Novo, e fica frequentemente eclipsado pelas lendas mais coloridas que cresceram à sua volta.

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