O Porto tem dois nomes que os portugueses usam sem pensar muito neles: Invicta para a cidade, tripeiros para os seus habitantes. Ambos têm origem em episódios históricos concretos, com datas e personagens identificáveis — não são apenas expressões surgidas do nada.
Já se escreveu sobre os tripeiros neste mesmo sítio: a história de como, em 1415, os portuenses deram toda a carne às tropas que partiam para Ceuta e ficaram com as tripas, das quais fizeram o prato que existe até hoje. Mas a Invicta é uma história diferente, mais recente, e mais violenta.
O cerco que durou mais de um ano
Em 1832, o Porto tornou-se o último reduto das forças liberais numa guerra civil que dividia Portugal entre dois modelos de governo — e entre dois pretendentes ao trono.
D. Pedro, defensor do constitucionalismo liberal, tinha desembarcado no Porto com um exército reduzido. As tropas absolutistas de D. Miguel cercaram a cidade e tentaram esmagá-la.
O cerco durou de julho de 1832 a agosto de 1833 — mais de um ano de bloqueio, combates, escassez de alimentos e bombardamentos. A cidade resistiu. Não capitulou.
As tropas liberais aguentaram dentro das muralhas enquanto a sorte da guerra foi sendo decidida noutros pontos do país, e quando o cerco foi finalmente levantado, eram os absolutistas a bater em retirada.
A vitória liberal foi consolidada, D. Miguel abdicou em 1834, e a filha de D. Pedro, D. Maria II, subiu ao trono. Como reconhecimento pela resistência da cidade — e pelo papel decisivo que essa resistência tinha tido no desfecho da guerra —, a rainha atribuiu ao Porto o título oficial de Invicta.
A palavra está desde então no brasão municipal. Não é uma alcunha popular que a cidade adoptou informalmente — é um título conferido por decreto, com uma razão histórica precisa por detrás.
O nome da cidade que deu nome ao país
Há ainda outro detalhe que vale a pena não deixar passar: o Porto é, provavelmente, a única cidade do mundo que deu nome a um país inteiro.
A região era conhecida pelos romanos como Portus Cale — porto de Cale, ou porto do Cale, dependendo da interpretação. Com as variações linguísticas ao longo de séculos, Portus Cale tornou-se Portugale, depois Portugal.
O território que se foi formando a partir deste ponto tinha o nome da cidade como raiz — e quando o país se tornou independente, o nome ficou.
O Porto deu assim origem ao nome de Portugal, o que torna a sua posição na história portuguesa diferente da de qualquer outra cidade, independentemente do orgulho rivalitário que anima as conversas entre portuenses e lisboetas.






