No alto de uma colina a norte de Póvoa de Lanhoso, o que hoje se visita não é apenas um castelo — é um conjunto de cinco elementos: a própria fortificação, o núcleo museológico, o Santuário da Senhora do Pilar, o Castro de Lanhoso e a Laje Grande. Um complexo que atravessa cinco mil anos de história humana no mesmo ponto.
Porque aqui já existia um forte no Calcolítico, há cerca de 5000 anos.
Da Idade do Bronze aos romanos, dos suevos aos sarracenos
A ocupação continua pela Idade do Ferro, é absorvida pela Cultura Castreja, e com a chegada dos romanos o ponto é readaptado a posto de vigia para controlar a via que ligava Bracara Augusta — a atual Braga — a Asturica Augusta, a atual Astorga.
Seguiu-se um longo hiato durante a influência romana, que perdurou com os suevos e visigodos. Foi a invasão árabe que reactivou o interesse estratégico desta colina — o bispado de Braga voltou-se para velhos baluartes para proteger a cidade, e Lanhoso foi um deles. A versão medieval do castelo foi fundada provavelmente no século XI, antes da fundação de Portugal.
D. Teresa e o cerco que quase mudou tudo
O castelo de Lanhoso tornou-se poiso habitual de D. Teresa, mãe de D. Afonso Henriques e considerada por muitos a primeira monarca do território que viria a ser Portugal.
Teresa foi das primeiras a clamar por um Portugal independente de Leão e Castela — o que enfureceu a meia-irmã, rainha de Leão e Castela — e o castelo foi sitiado durante meses como resultado de uma ofensiva sobre o Condado Portucalense. Apenas a intervenção diplomática pôs fim ao cerco.
D. Teresa queria enfrentar Castela em aliança com a Galiza, e para isso uniu-se a Fernão Peres de Trava, fidalgo galego e seu amante — uma ligação que gerou desconforto crescente entre os barões e o clero do condado, que temiam a incorporação do território pela Galiza.
O descontentamento reuniu-se em torno de D. Afonso Henriques, e os conflitos culminaram na Batalha de São Mamede em 1128, de que D. Afonso saiu vitorioso. D. Teresa refugiou-se na Galiza, onde viria a falecer.
D. Dinis, D. Manuel I e o abandono
D. Dinis requalificou o castelo no século XIII e concedeu a Lanhoso o primeiro foral em 1292, acrescentando uma torre de menagem. D. Manuel I renovou o foral dois séculos depois — mas a situação mudara: Portugal tinha agora um Império a gerir, e os castelos fronteiriços do interior foram progressivamente esquecidos.
Na segunda metade do século XVII, um burguês aproveitou as pedras da muralha parcialmente arruinada para construir um santuário dentro dos muros — o Santuário da Senhora do Pilar — perdendo-se assim o pouco que restava das estruturas originais.
O castelo que hoje se vê é produto das reconstruções de 1938, 1958, 1973 e 1975, realizadas depois de o local ter sido classificado como Monumento Nacional.
O que visitar em redor
Póvoa de Lanhoso tem outros pontos de interesse que complementam a visita ao castelo: o Centro Interpretativo Maria da Fonte, o pontão da Barragem de Andorinhas, a Praia Fluvial de Verim, o Pelourinho de Moure, o Santuário da Senhora de Porto d’Ave.
Para quem viaja com crianças, o DiverLanhoso é um dos maiores parques de aventura do continente europeu — um complemento inesperado mas eficaz a uma visita de carácter histórico.
O Castelo de Lanhoso resume algo que se repete em vários pontos de Portugal: um lugar de altura, com vista estratégica, que cada civilização que por ali passou reconheceu como importante e adaptou às suas próprias necessidades.
Do forte calcolítico ao posto romano, do reduto medieval ao santuário barroco construído com as pedras da fortaleza em ruínas — é a mesma colina, reutilizada sem interrupção durante cinco mil anos.







